Há alguns meses abordei a questão do galego-português na Galiza referindo-me ao galego reintegrado bem como ao português da Galiza, sem entrar em muitas reflexões acerca da diferença entre estes dois conceitos. Falava na altura que dentro da tendência reintegracionista se pode falar em galego reintegrado e em português da Galiza, sem considerar que ambos os conceitos sejam exatamente a mesma coisa. É bem sabido que dentro do movimento reintegracionista não há uma norma uniforme da língua, o qual, visto com perspectiva, é mesmo bom, embora pareça uma incogruência. E vou explicar-me.

É inegável que a opção reintegracionista suscita rejeitamento numa parte da povoação galego-falante. Não vou entrar nos motivos disso aqui. Porém, sim acho que a assunção do reintegracionismo passa por uma assunção em fases para a maioria da povoação. Sempre se disse que o galego tem que ter a sua autonomia dentro da Lusofonia, o qual é um conceito com que concordo. Não se pode pretender que os galegos falem português, seria absurdo, mas sim se pode pretender que escrevam português em maior ou menor medida. Quero dizer com isto, que o primeiro passo, a mudança ortográfica do galego-espanhol para o galego-português pode ter duas fases.

A primeira fase seria o galego reintegrado. O que entendo por galego reintegrado? Entendo principalmente uma manutenção das formas do galego comum escrito com uma ortografia portuguesa. De facto, para além da mudança ortográfica, o galego reintegrado não é muito diferente do galego do ILG, embora sim inclui formas muito mais avançadas no léxico e na sintaxe, digamos menos espanholizadas, assim como soluções históricas menos afastadas do português. Quem conhecer a norma galega do ILG, não deveria ter grandes problemas para saltar para a norma reintegrada. Eis a clave. Pode-se entender que o galego reintegrado resulta mais galego, o qual tem um efeito psicológico importante sobre muitos falantes. O galego reintegrado escolheria formas divergentes com o galego ILG, como muito em vez de moitoirmão em vez de irmán, mas com avantagem de a grafia reintegrada admitir uma dupla pronúncia, etc. Portanto, procurar-se-á que se usem formas históricas coincidentes com o português, em vez de procurar o afastamento. Quem quiser conhecer a proposta de escrita de galego reintegrado do Ciberminário de Estudos Galego Portugueses, pode fazê-lo aqui:

Pelo outro lado, dando um passo para em frente, na Galiza poderíamos também falar de português da Galiza. O português da Galiza e o galego reintegrado são diferentes quanto à proximidade do galego comum, pois o primeiro fica muito mais perto do português padrão europeu quanto às escolhas morfológicas. Provavemente a grande diferença entre galego reintegrado e português da Galiza se encontre na morfologia, pois do resto são basicamente iguais. O português da Galiza escolhe paradigmas verbais portugueses, mas ficam ainda sem definir alguns conceitos importantes. Contudo, usa sempre –ão e não –om, ainda que se pronunciem igual em muitos casos. A meu ver, dentro da fixação do português da Galiza, deve ser solucionada uma questão crucial para o galego, como é a existência da diferença de acusativo e dativo na segunda pessoa do singular, é dizer, a diferença entre teche, que o português ignora. Como solução pessoal (e insisto no de pessoal), nos meus textos estou a introduzir a grafia ťe para reproduzir a forma de dativo, sem assim usar che que em português seria muito esquisita.

Do que  não há qualquer dúvida é que no galego-português da Galiza (seja a forma que for), o léxico próprio não é sacrificado e substituído por um léxico absolutamente português, o qual inclui a fraseologia típica do galego. Aliás, e gostaria insistir nisto, o galego-português da Galiza sempre será pronunciado à galega, mesmo se se tratar de um texto escrito em português padrão europeu ou brasileiro.

Gostaria de insistir que ambas as formas, o português da Galiza e o galego reintegrado, podem coabitar sem problemas. Não são duas normas, é uma só, onde na segunda a aproximação do português é imensa e na segunda é menor. O tempo será quem diga qual é o futuro que aguarda ao galego-português na Galiza.