Uma das questões quelefante_em_lojae definem a situação linguística espanhola atual do ponto de vista das pessoas que são (orgulhosamente) monolíngues é a mudança de atitude nos últimos quinze anos. Da tolerância inicial que se praticou na chamada Transição política espanhola, tem-se passado para uma claríssima atitude de hostilidade, mui agressiva verbalmente. Em determinadas áreas, como a Galiza, as Astúrias ou o País Valenciano, a perda constante de falantes do idioma tradicional vem acompanhada de uma combatibidade enorme face às própias línguas de origem. A primeira consequência visível é recusarem o bilinguísmo que oficialmente impera em duas dessas regiões (nom nas Astúrias). O caso mais conhecido é a associação Galiza Bilíngue cujo nome esconde o desprezo absoluto para o galego e o desejo de esta língua ser varrida da vida social e até da escola, de modo que só haja uma língua na vida pública galega: o castelhano. O argumentário desta organização, mas que subscrevem pessoas das outras áreas que citei, diz cousas como que a língua tradicional não serve para além das fronteiras regionais (no caso galego é falso, pois o galego serve para se comunicar com 250 milhões de pessoas), que mais vale apreender inglês que não a língua tradicional, que o idioma tradicional não se tem que apreender nas escolas, mas nas casas, etc. Falam sempre de imposições, de que a língua já minorizada é imposta pola força e desloca o castelhano, que os falantes de espanhol são desrespeitados, etc. Qualquer um que tenha orelhas poderá observar como as línguas tradicionais têm a cada vez menor presença nos seus territórios históricos e o espanhol é a língua predominante em todos eles, nomeadamente nas cidades. Contudo, há uma situação claríssima: as línguas tradicionais retrocedem nos seus territórios respetivos e a solução não é fácil.

Este tipo de falante renegado (não me refiro ao falante castelhano chegado doutras partes, mas ao falante do próprio território da língua minorizada que mostra a fé do converso) medrou à sombra de uma mudança na política da direita espanhola, que aos poucos foi recuperando o seu nacionalismo ao longo dos anos. Optei por chamar a este tipo de pessoas orgulhosos monolíngues, porém, acho que ademais deveria chamá-los nanolíngues, pola estreitez do seu pensamento e a errada visão dos que têm dos idiomas, onde prima o desrespeito e até o ódio. Ademais, este fenómeno, parcialmente, também tem a ver com o nacionalismo, neste caso espanhol. Trata-se de um nacionalismo que não aceita a diversidade na unidade, que não pode esquecer-se do seu passado franquista, e que portanto quer que Espanha seja uma, grande e livre. Quando digo ‘uma’ quero dizer que não aceita que haja territórios com língua própria porque busca a premisa de «uma nação, uma língua». Precisamente para tratar de ocultar essa faceta fascista recorre-se ao inglês, para assim emascarar a hostilidade sob o velo do desprezo. A aprendizagem do inglês fornece esse verniz moderno, onde parece que se a língua tradicional está presente no sistema educativo, daquela o inglês não se apreende em boas condições. Sobre isto, cumpre dizer que a entrada do inglês —à qual não me oponho— no sistema educativo espanhol tem-se feito por norma precipitadamente e sem ter em conta muitos fatores, de maneira que os resultados não estão a ser os esperados, mas pouco se fala disto, porque só se aplica a lei do funil. Ademais, alguns destes nanolíngues estão convictos que se se apreende galego, valenciano ou asturiano na escola, no cérebro dos rapazes não fica espaço para o inglês. A sério, acreditam isso, pola visão do cérebro humano como se de um disco rígido se tratar. A sua defesa do espanhol baseia-se quase exclusivamente na utilidade do idioma. Partindo de premissas verdadeiras, como que o espanhol é a segunda língua com mais falantes nativos do planeta (mais de 90% fora da Europa, que receberiam um trato xenófobo pola maioria destes nanolíngues), passam para premissas falsas, como que o espanhol serve para ir a todas as partes, o qual é falso, porque a língua mais internacional é o inglês e o francês é a única língua que serve em boa parte da África. Não imagino um orgulhoso monolíngue de espanhol movendo-se por Ásia só com espanhol. Decerto não chegaria mui longe, porém, se o fizer com o inglês, as cousas mudariam.

Os nanolíngues jamais darão entendido que uma língua não é só um veículo de comunicação, é um modo de conceber o mundo e que ser poliglota é uma necessidade no mundo atual. Que uma pessoa fale três línguas —a tradicional, a do Estado e o inglês— não é um desastre, é um dom, é um presente. As línguas tradicionais talvez não servam para ganhar dinheiro, mas está demostrado que o indivíduo plurilíngue costuma ser mais tolerante. Eu não sou nacionalista de nengum signo, sou europeísta (porém não apoio esta Europa dos bancos), mas provenho de uma família que tinha o galego como língua própia, ainda na geração de minha mãe. Não é preciso ter um cérebro excepcional para as pessoas falarem ao menos duas línguas e três caso procedam de um território com língua própria. Não entendo a ideia de Espanha como um Estado monolíngue. Ademais, os nanolíngues, para além de monolíngues orgulhosos, costumam não falar bem nenguma língua estrangeira e fão o ridículo quando vão falando espanhol pola Europa Central. Confesso que estou farto de vê-los em rebanhos no coração da Europa, e ouvir ao meu lado frases do tipo: já vêm aí os espanhóis… por entrarem nos locais como elefantes numa loja de porcelanas berrando —que não falando— em espanhol, “uma língua que entende toda a gente”, segundo sustém a imprensa espanhola da direita. Por aí fora temos fama de ser um povo que não fala nada para além da própria língua e amiúde mal, porque muitos nanolíngues por riba têm um nível de espanhol deplorável, mas já se sabe que o (neo-)franquismo e a cultura são inimigos irreconciliáveis. E por se ainda não destes conta, os tempos anteriores a 1975 voltaram, embora seja com rosto amável, pondo em dia aquele lema de há setenta anos que dizia: «seja patriota, fale espanhol» por «não seja atrasado, fale espanhol».