Questões prévias

No presente estudo vamos abordar qual a situação dos escritores galegos que empregam a Norma Internacional do Galego (doravante NORMINTERGAL), diferente da norma oficial, as chamadas Normas Ortográficas e Morfológicas do Idioma Galego (doravante NORMIGAL).

É um facto conhecido que a língua galega, oficialmente, é uma língua independente do português. Assim é refletido na legislação espanhola e galega. Porém, este status não é aceite por uma parte importante dos intelectuais galegos, que reclamam que o galego e o português são variantes de uma só língua. Os defensores desta visão se agrupam no que se vem chamando o movimento reintegracionista. Isto envolve que exista uma proposta ortográfica alternativa à norma oficial, a NORMINTERGAL, que não é homogénea, mas que supõe a presença do galego dentro da Lusofonia, procurando a forma de encaixar nela.

Do ponto de vista da língua literária, os escritores galegos de expressão portuguesa não costumam empregar nem a norma portuguesa nem a brasileira, mas a própria galega (a NORMINTERGAL). Uma questão importante é que a NORMINTERGAL não está perfeitamente codificada, ao contrário do que acontece com a NORMIGAL. Quer isto dizer que há tendências, multiplicidade de formas (também de paradigmas), que oscilam entre o achegamento maior à norma portuguesa europeia ou o achegamento às formas próprias do galego comum.

Eis um exemplo de como se, se resolver a questão ortográfica, a unidade linguística seria muito mais fácil de alcançar. Oferecemos um breve microconto em três versões: PT-PT, PT-GZ (com duas soluções) e GL (NORMIGAL):

 

PORTUGUÊS PADRÃO NORMINTERGAL NORMIGAL
 O temível dragão Kilokombo acabou indo ao psiquiatra após perder a autoestima. Cada vez que o dragão atacava o seu pior inimigo, o cavaleiro Levedoso, este usava o seu lume tremendo para preparar uns ovos estrelados e coxas de frango na grelha. O temível dragom/dragão Kilokombo acabou indo ao psiquiatra após perder a autoestima. Cada vez que o dragom/dragão atacava o seu pior inimigo, o cavaleiro Levedoso, este usava o seu lume tremendo para preparar uns ovos estrelados e coxas de pôlo na grelha. O temíbel dragón Kilokombo acabou indo ao psiquiatra após perder a autoestima. Cada vez que o dragón atacaba o seu peor inimigo, o cabaleiro Levedoso, este usaba o seu lume tremendo para preparar uns ovos estrelados e coxas de polo na grella.

No quadro anterior ficam refletidas as principais diferenças entre os sistemas ortográficos do galego. No NORMINTERGAL usa-se tanto dragom quanto dragão, embora em ambos os casos a pronúncia seja a galega [dɾa’ɣon] e nunca a portuguesa [dɾɐ’ɣãw]; aliás, usa-se a forma própria do galego pôlo em vez da portuguesa frango. No texto redigido em NORMIGAL vão marcadas em negrito as formas cuja escrita é discordante da portuguesa, por seguirem um padrão espanhol, mas se olharmos para o texto do centro, tais diferenças podem ser salvadas se o texto for escrito conforme a escrita portuguesa, embora a pronúncia seja a galega.

E é na questão ortográfica, precisamente, onde os escritores galegos de expressão portuguesa ficam numa situação complicada, tanto a respeito mundo editorial galego que segue a NORMIGAL, quanto do mundo literário lusófono, pois eles vêm ficando numa terra de ninguém, como veremos a seguir. Precisamente, para abordar qual é a autêntica situação, recorremos a um questionário, no qual perguntámos diretamente a duas dezenas de autores.

O panorama editorial galego

A questão ortográfica não é um problema isolado para os escritores galegos de expressão portuguesa. O seguimento de uma norma ou de outra envolve reconhecimento ou ostracismo. Visto que a NORMIGAL é oficial para o galego, quem não a seguir terá muitas dificuldades para ver a sua obra publicada.

A NORMIGAL é a única norma com valor oficial administrativo na Região Autónoma da Galiza e, por extensão, no Reino de Espanha. Isto envolve que todas as administrações públicas só empreguem o galego conforme a NORMIGAL e que tal norma seja, igualmente, a única que se utiliza no ensino.

O que é obrigatório para as estruturas públicas, não é para as privadas, mas a realidade é que sendo a NORMIGAL a norma oficial, a imensa maioria das editoras seguem apenas esta norma e recusam publicar textos em NORMINTERGAL. Embora as razões para isto sejam evidentes demais, não vou entrar a analisar os motivos para as coisas serem assim na Galiza. Interessa apenas o resultado: quem não escreve segundo a NORMIGAL, é muito provável que fique ostracizado na Galiza.

Dentro do panorama atual, na segunda década do século XXI, as grandes editoras apenas publicam textos em NORMIGAL. Se atendermos para as principais editoras, este é o panorama atual conforme a aceitação de normativas.

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Embora no gráfico de acima não fique refletido, a edição em NORMIGAL supõe mais de 90% da produção literária galega, pois as duas grandes editoras galegas, Xerais e Galáxia, estão lá incluídas.

As restrições ortográficas, para além de afetar às editoras, também aos tipos de textos que se podem publicar em cada uma das normas. Enquanto em NORMIGAL é possível publicar qualquer tipo de texto (para além dos literários), em NORMINTERGAL não acontece a mesma coisa. Eis um gráfico onde se mostra a diferença entre utilizar uma norma ou outra segundo o tipo de textos:

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Portanto, o que envolve ser escritor de expressão portuguesa na Galiza?  Embora estas questões serão abordadas no questionário, adiantaremos algumas questões importantes. O mais grave, do nosso ponto de vista, é que não são aceites textos escritos numa norma diferente da portuguesa ou da brasileira. Para além disso, os autores galegos são considerados escritores espanhóis e, portanto, escritores estrangeiros. É por isso que existem traduções de galego para português e de português para galego, pois oficialmente são línguas independentes. Para completar a visão global, pode-se afirmar que o autor galego de expressão portuguesa tem imensas dificuldades para o acesso aos três pilares que compõem o sistema literário, isto é, o público leitor, as editoras e as livrarias.

O questionário

Passou-se aos escritores o seguinte questionário, onde a última pergunta foi adicionada apenas para expressarem algum pensamento que, se calhar, ficara sem recolher no resto do questionário. O questionário –– anónimo, sendo o único dado pessoal que lhes foi perguntado a sua data de nascimento –– foi respondido por 22 pessoas, entre as quais se encontram escritores reconhecidos, amadores e eventuais. O número de respostas não é desdenhável. Embora não exista uma lista “oficial” de escritores, podemos pensar que pelo menos 10% dos escritores galegos em ativo. As perguntas foram respondidas entre 21 de maio 2016 e 21 de julho de 2016. O escritor mais novo nasceu em 1974 e o maior em 1952. Infelizmente não contei com respostas dos escritores nados já na década de 1980, muitos dos quais sim escrevem na NORMIGAL, mas existem decerto escritores dessa década que utilizam a NORMINTERGAL.

1. Achas que o escritor reintegrado /lusista está marginalizado socialmente?

2. Achas que se julga a qualidade literária na Galiza também pela escolha ortográfica?

3. Porque escolheste a ortografia internacional do galego?

4. Utilizas por vezes, no campo literário, a ortografia do ILG, ou sempre utilizas a histórica?

5. Do teu ponto de vista, quais são as principais dificuldades que encontra o escritor reintegrado/lusista? Enumera até cinco

6. Como consegues publicar os teus textos em editoras galegas?

7. Tens experiência com editoras portuguesas, brasileiras ou de qualquer país de língua portuguesa?

8. Qual achas que é a resposta do mundo lusófono à existência de autores galegos de expressão portuguesa?

9. Achas que há algum público alvo que fica fora da literatura escrita em galego reintegrado/português?

10.  Que propostas tens para a literatura escrita segundo a ortografia internacional se espalhar pela Galiza?

 

Análise dos resultados

As respostas podem ser apresentadas assim:

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Contudo, diz-se que tal marginalização tem diversos graus. Institucionalmente há um acordo total que existe; porém, socialmente há opiniões divergentes. Também as editoras “oficiais” marginalizam os escritores reintegracionistas.

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Especifica-se que o facto de escrever na NORMINTERGAL supõe um inconveniente. Nem todos os escritores opinam que seja uma mera questão de julgamento da qualidade pela opção ortográfica, mas também por motivos políticos. Contudo, vários dos escritores assinalam que a recepção social está a melhorar desde a década de ’80, indicando que se tem melhorado nos últimos 30 anos.

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Alguns escritores marcaram mais de uma razão, eis porque os números são superiores neste gráfico. Dentro da coerência há submotivos, como a adequação da norma, a praticidade de escrever para o público lusófono, o rigor científico, etc. Quanto à normalização, há muitos que veem na reintegração a única maneira de o galego se salvar da extinção/ assimilação pelo espanhol.

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Alguns dos autores (3), que a dias de hoje não alternam as grafias, sim começaram a sua carreira utilizando a NORMIGAL.

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Aqui alguns autores dão mais de uma opção nalguns casos. Há quem diz que não consegue publicar livros, mas sim textos literários na net. Quanto aos prémios, refere-se aos poucos que há no panorama galego onde não há restrições normativas.

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Nesta pergunta o número de respostas é muito alto, porque os escritores assinalaram mais de uma dificuldade em todos os casos. Uma ideia muito interessante que surge é que o escritor reintegrado fica em terra de ninguém, pois não é nem um escritor em galego (oficial), nem um escritor em português.

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A metade dos escritores não tem relação com editoras lusófonas. Há explicações interessantes disso. A maioria nem tentou estabelecer tal relação, mas muitos incluídos nesta seção que sim tentaram e foram recusados. Há um caso interessante de um escritor que diz que não interessa o contato com as editoras portuguesas ou galegas, porque o seu único campo de atividade é a Galiza. A seção digital (que inclui mesmo revistas em papel) é onde há uma maior presença de escritores galegos.

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Quando se fala em “variável”, esta é uma etiqueta onde se recolhem várias respostas: a percepção é diferente segundo os ambientes. A impressão dos escritores é que, segundo o grupo com que se relacionam, a atitude dos diferentes grupos varia, portanto, não percebem uma atitude homogénea.

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Parece evidente que o setor leitor com menos acesso aos testos na NORMINTERGAL é o infantil, embora para muitos autores não haja qualquer público alvo que fique fora da norma internacional. Contudo, alguns escritores mencionam, para além dos lógicos leitores com preconceitos ortográficos, o público que nem lê ou pelo menos não em galego em qualquer uma das suas normativas. Parece claro que a LIJ é uma matéria pendente para o reintegracionismo galego, mas qual a solução quando o controlo dos materiais escolares é tão férreo em contra do reintegracionismo?

Conclusões

Podemos tirar várias conclusões depois do estudado anteriormente:

  1. Amiúde os escritores galegos de expressão portuguesa não são considerados autores que fazem parte da literatura galega, o qual envolve que não sejam incluídos nos manuais de estudo.
  2. Os autores galegos de expressão portuguesa não dispõem de acesso a, pelo menos, 85% das editoras
  3. Estes escritores não são bem aceites por norma nos contornos literários luso-brasileiros.
  4. Estes autores também não dispõem de muito público leitor na Galiza, porque as pessoas não estão educadas na norma reintegrada.
  5. Para além disso, este coletivo de autores não tem acesso a subsídios nem prémios (a grande maioria de convocatórias exigem que os textos sejam redigidos na norma oficial).
  6. É muito frequente que muitos destes autores sejam ostracizados.

 

É preciso tomar medidas. Os autores não ficam de braços cruzados. Recentemente houve uma campanha na net (primavera-verão 2016) com um manifesto que pedia o fim do apartheid normativo e que foi assinado por mais de quinhentos intelectuais, onde muitos deles nem são reintegracionistas[1]. A explicação dos princípios que guiam os promotores do manifesto pode ser lida num artigo do jornal virtual galego Praza Pública[2].

Para além disso, dentro das hipóteses de melhoria, os próprios autores participantes no questionário assinalam algumas atuações que deveriam ser empreendidas, tal como se reflete no presente gráfico:

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© Xavier Frias Conde (UNED)

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[1] https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdMgZmk3oVswRYf5drPsFj-TdECRLzoMcLhEYMcyQJ-iX8rvA/viewform (recuperado 25 de agosto de 2016)

[2] http://www.sermosgaliza.gal/articulo/cultura/non-somos-inimigos-non-escribimos-nunha-lingua-diferente/20160622100505048842.html (recuperado 25 de agosto de 2016)