Monemática

1. Monemas, temas, desinências, lexemas e morfemas

1.1. A arquitetura das palavras

A estrutura das palavras é o objeto de estudo da morfologia, que no contexto da GFC é nomeada como monemáticaA maioria das palavras podem ser descompostas em unidades inferiores, segundo este quadro que iremos desenvolvendo a seguir:

Monema

Lexema

Morfema

Tema Afixo Livre

Dependente

Prefixo

Sufixo

1.2. Monemas

O conceito palavra é pouco rigoroso, por isso, preferimos falar em monemasQual a diferença entre monema e palavraSe tomarmos como amostra falo, falas, fala, falamos, falam, ou bem casa, casas, casinha, teremos palavras diferentes, mas de facto são apenas dois monemas, pois não há diferença de significado.

Em princípio, uma palavra pode estar composta por um só monema: casaMas também pode estar composta por mais elementos, como em presentear:

[presente|-ar]

É claro que presente é um monema, mas ao ser-lhe adicionado um elemento que transforma um nome (presente) num verbo (presentear) acontece que é possível dividir os monemas em unidades menores. Portanto, a estrutura de presentear é o já apresentado encima:

[presente|-ar]

Portanto, um monema pode contar com no mínimo um lexema > monema simplesSe o monema, para além de um lexema, contar com outros elementos, estes são morfemas > monema derivado

Qual a diferença entre lexema e morfema?

  1. O lexema tem carga semântica, isto é, tem significado.
  2. O morferma adiciona informação de outro tipo (gramatical, contextual, etc.)

1.3. Temas

Os temas (com ou sem afixos) formam lexemas, por causa de possuírem significado, correspondem às quatro categorias gramaticais principais:

  • Nome (N)
  • Verbo (V)
  • Adjetivo (A)
  • Advérbio (ADV)

A maioria dos temas portugueses vêm diretamente do latim, mas foram submetidos a uma evolução que os transformou. Exemplo LT pisce(m) > PT peixe; LT > lacte(m) > PT leite; LT molinum > PT moinho; etc. Estas são as palavras primitivas do idioma. Mas ao longo da sua história, o português tomou palavras de outras línguas com que conviveu.

  • Árabe: arroz, algodão, açúcar, etc.
  • Germânico:  guerra, branco, luva, etc.
  • Das línguas da América: tomate, chocolate, abacaxi, etc.

Quando em português encontramos palavras como lunar, repetir, filial, capital, etc. mostram um tema que não é uma palavra primitiva: luna, petir, filio, cápitaTrata-se de raízes latinas cujos equivalentes em português moderno são: lua, pedir, orelha, cabeçaEstes temas latinos dão lugar a uma palavra culta ou cultismoDe facto, existem alguns casos em que há um derivado do tema primitivo e do culto ao mesmo tempo, como luar >< lunar, capital >< cabeçal, etc.

1.4. Afixos

Os afixos fornecem informação gramatical aos temas e até por vezes léxicas, mas eles só carecem de significado,

Lexema

Prefixo Raíz ou tema

Sufixo

Os afixos são colocados antes e depois do tema. Os prefixos vão colocados antes do lexema: desnecessário, autoserviço, etc. Os sufixos vão colocados depois do lexema: qualificar, extraordinariamente, etc.

2. Análise temática: formação de palavras

As palavras podem ser classificadas assim:

2.1. Palavras compostas

As palavras compostas são aquelas que têm dois monemas. Quando os dois monemas conservam o seu acento tônico, fala-se em palavras justapostas:

  • couve-flor (plural couves-flores ou couve-flores),
  • couve-de-bruxelas
  • porco-espinho (pl. porcos-espinhos ou porcos-espinho)
  • rico-homem
  • surdo-mudo

Mas quando fica apenas um só acento tónico, no segundo lexema, fala-se em palavras aglutinadas:

  • aguardente
  • vinagre
  • girassol
  • parassol
  • planalto
  • embora
  • pontapé

2.2. Palavras derivadas

As palavras derivadas são aquelas que precisam de afixos adicionados ao lexema. Os dois procedimentos mais frequentes são a prefixação e a sufixação:

(a) prefixação, com pôr

  • compor
  • depor
  • dispor
  • impor
  • repor    

(b) sufixação, com cabeça

  • cabeceiro
  • cabecear
  • cabeceira
  • cabeçal
  • cabeçalha    

2.2.1. Por prefixação

Os sufixos, como já foi dito, são elementos que se antepõem ao tema. Os principais prefixos do português são: a-, ab-, ad-, ante-, co-, com-, de-, des-, dis-, em, en-, im-, in-, per-, pro-, re-, retro-, etc. Alguns dos prefixos anteriores são variantes, por exemplo coabitar vs. compor vs. concederExemplos de derivação por prefixação:

  • afiliar (a·filiar);
  • anaeróbico (an·aeróbico);
  • antemão (ante·mão);
  • anti-inflamatório (anti·inflamatório);
  • através (a·través);

Alguns prefixos são escritos com um hífen, embora a maioria não se separem do lexema. Usa-se o hífen quando o prefixo termina com a mesma vogal com que começa o lexema, tenha ou não <h>:

  • micro-ondas;
  • anti-inflamatório;
  • contra-ataque;
  • anti-higiênico;
  • sobre-humano; etc.

Esses mesmos prefixos vão sem hífen quando não se dão as circunstâncias anteriores:

  • anticoncepcional;
  • contraproposta;
  • sobrenome;
  • antirrugas;
  • contrassenso; etc.

2.2.2. Por sufixação

Exemplos:

  • aprendiz (aprender|iz);
  • folhear (folha|ear)
  • simplesmente (simples|mente)
  • ciumento (ciúme|ento)
  • velozmente (veloz|mente)
  • orgulhoso (orgulho|oso)

A sufixação pode causar o passo de uma categoria para outra. Por exemplo, o adjetivo bom transforma-se em adjetivo graças a um sufixo: bondadeMas a mudança de categoria não acontece sempre. De livro derivam livraria e livreira, todos três nomes. A lista dos principais sufixos categorizadores:

Sufixos nominais Sufixos verbais Sufixos adverbiais Sufixos adjetivais
  • -dor /-tor
  • -eiro
  •  -ão
  •  -aço
  •  -inho
  • -mento
  • -dade
  • -ice
  • -ez
  • -iz
  • -ura
  •  -ear
  •  -ejar
  •  -ecer
  •  -izar
  •  -mente
  • -al
  • -ável / -ível
  • -il
  • -oso/a
  • -ado/a

2.2.3. Por parassíntese

Na parassíntese dão-se juntas a prefixação e a sufixação:

  • abençoar (a|benç|oar)
  • amanhecer (a|manhã|ecer)
  • anoitecer (a|noite|ecer)
  • entardecer (en|tarde|ecer )
  • envelhecer (en|velho|ecer)
  • enrijecer (en|rijo|ecer)
  • entristecer (en|triste|ecer)
  • emagrecer (e|magro|cer)
  • engaiolar (en|gaiola|ar)

2.2.4. Diferença entre derivação parassintética e derivação prefixal e sufixal

É possível confundir derivação parassintética com prefixação e sufixação. Uma derivação por sufixos pode contar também com prefixos. Por exemplo:

  • felizmente [feliz|mente]
  • infeliz [in|feliz]
  • infelizmente {in|feliz|mente}

Porém, na derivação parassintética, é obrigatória dos dois afixos: prefixo e sufixo:

  • apresentar (a·presente·ar)
  • espairecer (es·pairar·ecer)
  • esquentar (es·quente·ar)
  • entediar (en·tédio·ar)
  • desgelar (des·gelo·ar)

Exemplos de derivação prefixal e sufixal:

  • deslealdade (des·leal·dade);
  • independentemente (in·dependente·mente);
  • infielmente (in·fiel·mente), etc.

2.2.5. Redução

A redução é um procedimento pelo qual uma palavra é reduzida. Também se incluem nesta seção as siglas:

  • foto (< fotografia);
  • info (< informação)
  • mota (< motocicleta) <no Brasil moto>;
  • pneu (< pneumático);
  • ONU (<Organização das Nações Unidas);
  • INEM (< Instituto Nacional de Emergência Médica)

2.2.6. Derivação imprópria

A derivação imprópria é um processo pelo qual uma palavra que pertence a uma determinada categoria (N, A, V, ADV) muda a categoria gramatical sem mudar a sua forma. As principais mudanças são:

V > N

  • O saber não ocupa lugar.
  • É muito engraçado o falar daquele senhor.
  • Meu vizinho tem um andar engraçado.
  • Gosto do seu olhar.
  • O jantar já está pronto!

A > N

  • Os bons sempre são estimados.
  • O nervosinho ali não se controla.
  • Os jovens andam perdidos.
  • Estou a desfrutar do azul do céu.

A > ADV

  • Esse fulano grita muito alto
  • A menina falou baixo, cheia de vergonha.
  • Fala sério!

ADV > N

  • Estou esperando o sim da direção.
  • A esse menino falta ouvir um não.

N > A

  • O meu filho sempre foi um menino prodígio.
  • Esta cidade fantasma é assustadora!

2.2.8. Derivação regressiva

A derivação regressiva consiste em criar uma palavra nova por redução da palavra de que deriva.  Por norma, trata-se de um processo de mudança de categoria V > N. Exemplos:

  • abalo (< abalar);
  • agito (< agitar);
  • ajuda (< ajudar);
  • alcance (< alcançar);
  • amasso (< amassar);
  • amostra (< amostrar);
  • amparo (< amparar);
  • ataque (< atacar);
  • atraso (< atrasar);
  • caça (< caçar);
  • castigo (< castigar);
  • choro (< chorar);
  • combate (< combater);
  • compra (< comprar);
  • consumo (< consumir);
  • corte (< cortar);
  • debate (< debater);
  • denúncia (< denunciar);
  • dispensa (< dispensar);
  • embarque (< embarcar);
  • erro (< errar);
  • mergulho (< mergulhar);
  • pesca (< pescar);
  • recuo (< recuar);
  • remoinho (< remoinhar);
  • renúncia (< renunciar);
  • saque (< sacar);
  • sobra (< sobrar);
  • sustento (< sustentar);
  • toque (< tocar);
  • trabalho (< trabalhar);
  • venda (< vender);

3. A análise lexemática

Até aqui temos visto quais os procedimentos que explicam a criação de palavras em português e que compõem a análise temática. A seguir, ocupar-nos-emos com os monemas temáticos das quatro grandes categorias (N, A, V, ADV). Os lexemas são a unidade que formam os temas com os afixos. Os morfemas são uma projeção dos lexemas, aos quais adicionam informação gramatical.

morfema

livre

dependentes

desinências nominais

desinências verbais

Já não se trabalhará com sufixos nem prefixos, mas com lexemas e desinências, que formam a análise lexemáticaTrata-se, portanto, de dois níveis de análise:

monema

tema

morfemas

prefixo(s) lexema

sufixo(s)

Os morfemas livres vão independentes, como as preposições ou os clíticos. Os morfemas dependentes vão ligados ao lexema.Num monema como fácil, há coincidência quanto ao lexema, ao tema e ao monema adjetival. O monema facilidad tem uma análise temática:

[fácil|idade]

Se aparecer em plural, já é possível a análise lexemática:

[(facilidade)(-s)]

E até se podem combinar os dois níveis de análise:

[(fácil|-idade)(-s)]

3.1. Monemas nominais e adjetivais

Os nomes e os adjetivos têm um comportamento morfológico muito parecido. O tema de ambas as categorias admite desinências de dois tipos: género e número. Aliás, ambas as categorias admitem desinências de diminutivo e aumentativoA estrutura do nome e do adjetivo pode ser representada assim:

monema nominal e adjetival

lexema

desinência

prefixo(s) tema sufixo(s) diminut. (D) género (Gº)

número (Nº)

Os adjetivos admitem, ademais, formas sintéticas de comparação:

  • bom > melhor
  • mau > pior
  • grande > maior
  • pequeno > menor 

As desinências de género são de múltiplas formas em português e nem todos os monemas admitem esta flexão (─a, ─ina, ─inha, ─ã). As distintas possibilidades de desinência são conhecidas como alomorfes.

  • alto > alta
  • mestre > mestra
  • irmão > irmã
  • leão > leona
  • rei > rainha
  • herói > heroína
  • abade > abadessa
  • bom > boa

Quanto às desinências de número, estas também apresentam variantes (─s, ─es, ─is, ─eis). Tem, portanto, alomorfes:

  • casa > casas
  • homem > homens
  • canção > canções
  • verão > verãos
  • capitão > capitães
  • canal > canais
  • fácil > fáceis

À vista do anterior, vemos que há formações regulares e irregulares.

Exemplos de formações regulares:

  • altas > [(alto)(-a)(-s)]
  • vacas > [(vaca)(-s)]
  • professoras> [(professor)(-a)(-s)]

Exemplos de formações irregulares (as letras rasuradas indica que desaparecem quando é incorporada a desinência):

  • irmãos > [(irmã)(-o)(-s)] É um caso de masculino com desinência
  • canções > [(canção)(-ões)]
  • animais > [(animal)(-is)]
  • fáceis > [(fácil)(-eis)]
  • túneis > [(túnel)(-is)]

Há casos em que não há uma desinência nem para o género nem para o número. Falamos então de desinência zero (∅):

  • importante (fem.) > [(importante)(-∅)]
  • lápis (pl.) > [(lápis)(-∅)]

3.2. Monemas verbais

O verbo é o elemento mais complexo de todas as categorias de palavras. Em português aceita a maior quantidade de desinências: pessoa, tempo, modo, aspeto, voz. A sua estrutura temática pode ser representada assim:

monema verbal

lexema

desinência

prefix(s) tema sufixo(s)

pessoa (P)

tempo   (T) modo (M) aspeto (A)

voz (V)

Uma das caraterísticas mais importantes das desinências verbais é que é quase impossível separá-las como se faz com as desinências nominais e adjetivais.

Se compararmos falo com falei, a desinência ─o do primeiro caso colhe a seguinte informação: presente de indicativo, primeira pessoa do singular, aspecto imperfectivo, voz ativa; porém, a desinência ─ei colhe a seguinte informação: pretérito perfeito simples de indicativo, primeira pessoa do singular, aspecto imperfectivo, voz ativa. A única diferença entre ambas é o tempo.

Porém, todas as informações vão incluídas numa só desinência. Esta característica de aglutinar vários traços numa só desinência é conhecida como amálgama. A amálgama, contudo, nem só se refere às desinências, mas também existem amálgamas de tema e desinências, como fui, veio, etc., que marcamos com (*)

Em português, as desinências todas, salvo a pessoa, formam uma só amálgama que cá chamamos dimensãoPortanto, as desinências verbais vão em maior ou menor medida amalgamadas.

  • falei

M01

  • falaram

M02.png

  • falarias

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Mas com os verbos existe um problema adicional. Trata-se dos verbos irregulares.Apresentam um lexema irregular mas também as suas desinências são parcialmente irregulares:

  • fazer > fiz-
  • dizer > diss-
  • traer > troux-
  • querer > quis-; etc.

Da mesma forma que falamos em alomorfes, cá falamos em alolexemas.

  • trouxeste > que é um alolexema de traze-

M04.png

O alolexema pode ser também encontrado na primeira pessoa do singular do presente de indicativo e, depois, por extensão, em todo o presente de conjuntivo:

  • faço

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  • fazes > [(faz)(es)]

M06

  • faz

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Aliás, os verbos conhecem formas compostas com ter. Neste caso há dois lexemas, mas é sempre um só monema:

  • tinha visto > onde tinha é um alolexema de te (ter).

M08.png

É este também o caso da voz verbal passiva:

  • somos aguardadas

M09

E até se podem combinar os tempos compostos com a voz passiva:

  • têm sido aguardados

m12

3.3. Monemas adverbiais

É um género de monemas são muito simples. Apenas aceitam, e só nalguns casos, uma forma de diminutivo. Por norma, os advérbios só constam de tema. A sua estrutura de temas é, portanto:

monema adverbial
lexema desinência
prefixo(s) tema sufixo(s) diminutivo
  • bem
  • devagar·zinho

Coincidem com os adjetivos que aceitam formas comparativas sintéticas.

  • bem > melhor
  • mal > pior

4. Categorias ou classes de palavras

4.1. Classes abertas e classes fechadas

Até agora prestámos uma especial atenção para as quatro categorias principais: N, V, A, ADV. Estas quatro classes constituem a classe aberta, pois novos elementos podem ser incorporados a ela. Isto quer dizer que a língua incorpora constantemente nomes, verbos e adjetivos (e em menor medida advérbios) à língua. O resto de categorias (preposições, demonstrativos, possessivos, etc.) não aumentam, ficam praticamente imutáveis dos inícios do idioma. Por isso são uma classe fechada.

4.2. Classificação

Do ponto de vista morfológico, as categorias ou classes de palavras em português são:

  1. Nome
  2. Adjetivo
  3. Determinante
    1. Artigo
      1. Definido
      2. Indefinido
    2. Demonstrativo
    3. Possessivo
  4. Quantificador (indefinido)
  5. Numeral
  6. Interrogativo e exclamativo
  7. Pronome
    1. Pessoal
      1. Reto
      2. Oblíquo
    2. Relativo
  8. Clítico (diferente do pronome pessoal, é de facto um morfema livre, enquanto o pronome é um lexema).
  9. Verbo
    1. lexemático
    2. auxiliar
  10. Advérbio
    1. simples
    2. locução (de repente, em breve, etc.)
  11. Preposição
    1. simples
    2. composta (locução)
  12. Conjunção
    1. coordenativa
      1. aditiva
      2. adversativa
      3. consecutiva
      4. alternativa
      5. conclusiva
      6. explicativa
    2. subordinativa
      1. integrante  (que, se)
      2. condicional
      3. temporal
      4. causal
      5. concessiva
      6. fina
      7. comparativa
  13. Interjeição

4.3. Uso atributivo e predicativo

Tradicionalmente distingue-se entre uso pronominal e adjetival de certos elementos, como os demonstrativos. Cá preferimos falar em uso atributivo e uso predicativoO uso atributivo aparece quando o elemento em questão não depende de nenhum outro:

  • Este rapaz é bom
  • A minha casa é linda

O uso predicativo, em contraste, aparece quando o elemento em questão depende de um outro:

  • O bom rapaz é este
  • Este é bom
  • Essa casa linda é minha

5. Na fronteira entre morfologia e sintaxe

5.1. A análise pré-sintagmática

Atenderemos, portanto, para as projeções dos quatro lexemas mais importantes: N, A, V e ADV, cujas projeções são: N’, A’, V’ e ADV’. Chamamos análise pré-sintagmática àquela que se ocupa da projeção máxima dos quatro monemas. Se houver extensão, já não se trata de uma análise morfológica, mas sintática. Uma análise monemática projetada serviria para explicar:

  • Com esses rapazes > há uma unidade de significado

Porém, não serve para analisar:

  • Com esses simpáticos rapazes do teu bairro > não há unidade de significado

m13b

Os elementos sublinhados são extensões, portanto fica fora do âmbito de estudo da morfologia e já corresponde à sintaxe.

5.2. Projeção nominal

Uma projeção nominal pode ser implementada por preposições (C, de caso) e determinantes, entre os quais figuram os artigos, possessivos e demonstrativos. A projeção nominal, como o sintagma nominal, tem de respeitar a regra da concordância a respeito do seu núcleo, o nome (N). Por simplicidade, prescindiremos da análise temática neste capítulo:

  • inglesas

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  • as inglesas

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  • estas inglesas > É o mesmo caso do artigo, mas com desinências.

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  • com as inglesas> A preposição é uma desinência livre, mas também um monema por não estar ligado ao nome.

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Numa língua como o latim, pode-se prescindir de proposições, pelo qual a análise é diferente:

  • lusitanicis

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  • his lusitanicis

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O latim e o português são línguas flexivas, mas quando se trata de línguas aglutinantes, a fronteira entre monema e sintagma é apagada. Eis um exemplo do basco, uma língua aglutinante:

  • Bilbokoak (=’os de Bilbao’)

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5.3. Projeção adjetival

A projeção adjetival pode ter uma flexão de género, número, diminutivo e comparação, como já foi visto em §3.1. Para além disso, pode ir precedido de um intensificador (um advérbio).

  • simpáticas

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  • muito simpáticas

m21

  • muito especiais

m22

O intensificador pode ser um morfo:

  • especialíssimos

m23

Se for comparado, ficaria assim:

  • mais altos

m24

5.4. Projeção adverbial

A projeção adverbial funciona morfologicamente como a adjetival, com a diferença que não tem flexão.

  • devagar 

m25

  • muito devagar

m26

  • devagarzinho

m27

  • devagaríssimo

m28

5.5. Projeção verbal

Existem vários elementos que devem ser mencionados na análise dos elementos que projeta o verbo lexemático (predicado): verbos auxiliares, negação e clíticos.

 

  • falamos

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  • falássemos

m30

  • estamos falando

 

m31

 

  • não vos tenho falado > A negação é marcada como NEG, embora se trate de um advérbio. Observe-se como o clítico vós é considerado C, isto é, uma marca de caso, como as preposições. A diferença entre a preposição e o clítico é que a primeira é uma projeção do nome, enquanto a segunda é uma projeção do verbo.

m32

  • tem sido falado

 

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6. Abreviaturas

  • A: adjetivo
  • Aº: artigo
  • ADV: advérbio
  • AUX: auxiliar (verbo)
  • C: caso (as preposições e os clíticos estão incluídas nesta categoria)
  • COM: comparativo
  • D: dimensão
  • DE: determinante
  • Dº: diminutivo
  • Gº: género
  • I: intensificador
  • N: nome
  • Nº: número
  • NEG: negador
  • P: pessoa
  • Pº: possessivo
  • V: verbo

Mais sobre Galego e Lusofonia: a padronização pendente

A questão de qual a relação do galego com a Lusofonia, do ponto de vista reintegracionista, ainda dará para escrever muitas páginas e manter muitas discussões. No entanto, convém fixar alguns conceitos, como onde ficaria uma norma galega no padrão do idioma português, visto que a realidade, que é muito teimosa, até agora indica que há mais de uma proposta e que o chamado movimento reintegracionista é muito heterogéneo, o qual, embora pareça um problema, não o é, porque favorece que não existe uma só norma rígida reintegracionista para o galego, o qual, nos dias de hoje, é algo impossível e que seria nocivo para o idioma e os seus falantes.

Portanto, antes de iniciarmos as ditas questões específicas de qual a relação normativa do galego com a Lusofonia, é preciso esclarecer alguns conceitos, concretamente a que nos referimos quando falamos em padrão, parapadrão e subpadrão, visto que, na própria sociolinguística da padronização nem todos concordam com a definição destes conceitos.

Em primeiro lugar, o padrão é o conceito hierarquicamente superior. O padrão é o modelo de lingua escrita no ponto mais abstrato, com umas regras para a escrita muito concretas, e uns paradigmas.

Língua-padrão é a maneira de falar e escrever que é considerada correcta por uma dada comunidade. Historicamente, é uma modalidade linguística que, servindo para controlar a variação dialectal inerente aos sistemas linguísticos, se tornou um meio de comunicação unificado nos ‘media’ e no ensino a estrangeiros (David Crystal A Dictionary of Linguistics and Phonetics, s/v).

Existe, portanto, um padrão do português, como existe um padrão para o espanhol, o inglês, o francês, etc. Todos estes idiomas possuem uma língua-padrão.

Mas, ao mesmo tempo, todas estas línguas não se falam, nem inclusive se escrevem, igual em toa a parte. No caso do inglês, até encontramos grafias diferentes segundo o país (cf. honour (GB) ~ honor (US); realise (GB) ~ realize (GB)), mas as diferenças léxicas são imensas entre os distintos territórios que falam as ditas línguas, sem por isso dizer que uma variante é melhor ou mais correta do que outras, daí que falemos em línguas pluricêntricas quanto ao seu padrão linguístico, onde cada concretização do dito padrão é o parapadrão nacional (ou regional).

Ainda nalguns casos, territórios por norma reduzidos, requerem, por motivos sócio-políticos, de uma adaptação ainda maior da norma, em cujo caso falamos de sub-normas. Hierarquicamente reflete-se assim:

Padrão linguístico

Parapadrão A

Parapadrão B

Subpadrão A 1 Subpadrão A2 Subpadrão B1

Subpadrão B2

Para o português, há portanto um só padrão, mas visto que sim é uma língua pluricêntrica, existem normas. Entre elas, reconhecemos principalmente duas: a norma europeia (parapadrão lusitano) e a norma americana (parapadrão brasileiro), mas nem só existem estas, pois os outros países africanos de expressão portuguesa têm de facto a sua própria norma. Cabe até perguntar-se se se pode falar em normas asiáticas.

Nesta situação, oficialmente o padrão do português é diferente do padrão do galego, o qual envolve que, oficialmente, são duas línguas diferentes. Portanto, se não atendermos para o galego como parte da Lusofonia, o quadro normativo do português pode ser refletido assim:

padrao00

Como dissemos em cima, deveriam ser incluídas o restos de variantes africanas e também asiáticas, mas deixamos fora por questão de espaço.

No entanto, se aceitarmos que o galego faz parte da Lusofonia, então o gráfico anterior precisa de um quadrinho novo:

padrao01

E então, a que faz referência esse parapadrão galego? Existe este parapadrão desde 1985 na sua primeira versão, com formas diferentes adaptações e modificações. Ele é conhecido como Galego Internacional. Existe porque para a maioria dos reintegracionistas o parapadrão português não serve para a Galiza nem como língua administrativa, nem educativa, embora sim possa servir como língua literária. De facto, a forma mais próxima deste parapadrão do português lusitano é  conhecida como Português da Galiza. Mas como acabamos de afirmar, existem duas propostas de padronização do galego internacional. A primeira é a promovida pela Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) que se identifica com a visão de Português da Galiza. Por sua parte, a segunda proposta é a que sustém a Associaçom Galega Da Língua (AGAL) que se identifica com a visão do Galego Internacional. No entanto, não se pode falar em duas propostas totalmente diferentes, mas de um contínuum que permite a escolha de formas entre o português e o galego comum (no sentido que utilizava Carvalho Calero).

Porém, a inclusão de duas formas coexistentes em galego, mas que respondem a uma só realidade social, envolve que o galego precise dalgo mais do que um parapadrão. Precisa também de um subpadrão. Se calhar, o modelo catalão possa servir de referência, visto que os três níveis hierárquicos assinalados em cima existem neste diassistema:

padrao02

É interessante observar como os subpadrões da Franja de Poente em Aragão e do Alguer na Sardenha têm um status próprio, mas são considerados subpradrões, sem mais pretensão, para um uso local. Embora os três subpadrões estejam no mesmo nível, é inegável que o parapadrão do catalão da Catalunha é que tem um status mais internaciona e até é o oficial num Estado que tem o catalão como língua oficial: Andorra.

Se incorporarmos o parapadrão do Português da Galiza e o subpadrão do Galego Internacional, o gráfico anterior tem de ser refeito assim:

padrao04

Contudo, ultimamente tem-se iniciado um debate na Galiza muito interessante. Está-se a falar da hipótese do binormativismo, isto é, que na Galiza possam coabitar duas normas para o galego (NORMIGAL), a da RAG/ILG que tem um valor mais ou menos oficial, junto com a reintegracionista (NORMINTERGAL). O debate está muito vivo hoje. Assim diz Xosé Ramón Freixeiro Mato, provavelmente a maior autoridade viva em Linguística Galega:

Por que não admitirmos que o galego possui uma norma própria ou interna, de uso habitual na administração e no ensino, e outra norma de uso internacional, a (galego-)portuguesa, que também deveria ser apreendida no ensino regrado e não discriminada ou reprimida? O nosso caso não seria muito diferente do de Noruega, com a variante ‘nynorsk’ ou norueguês tradicional e ‘bokmal’ ou norueguês mais próximo do dinamarquês, ambas as normas a gozarem de reconhecimento oficial e de aprendizagem obrigatória no ensino, a pesar de a primeira só ser escolhida por 13% dos centros escolares como prioritária e por 7.5% da população norueguesa como a sua norma escrita. Teríamos assim no galego uma norma oficial maioritária, a atualmente vigorante, e a vantagem de uma segunda norma que faria a população escolar –e a mais longo prazo toda a sociedade galega– plenamente competente numa das línguas oficiais da Comunidade Europeia e numa das mais faladas no mundo. Xosé Ramón Freixeiro Mato. https://www.sermosgaliza.gal/opinion/xose-ramon-freixeiro-mato/sermos-galiza/20180402143259067486.html

Se, aliás, se tomar em conta que a norma RAG/ILG, embora funcione como oficial, não é de facto oficial, a situação na Galiza é paradoxal, porque há uma norma que funciona como oficial sem o ser, e coabita com outra que é oficialmente marginalizada. Quanto ao valor oficial da NORMIGAL:

No caso da Galiza, a Disposição adicional da Lei 3/1983, de 15 de junho, de normalização linguística, refere-se à correção idiomática para estimar “como critério de autoridade o estabelecido pola Real Academia Galega” indicando claramente que a opinião desse organismo é apenas um critério de autoridade que não se define como único ou exclusivo, nem como obrigatório para os administrados e muito menos como oficial.

A Sentença 1992/1993, de 4 de maio, do TSJG, confirmada pela sentença do Tribunal Supremo de 2 de outubro de 2000, defende a legitimidade do uso de “outras regras ortográficas do idioma galego assumidas e praticadas em eidos intelectuais e por capas sociais que atopam o seu fundamento e legitimidade em razões históricas, consuetudinárias, geográficas e de polimorfismo próprio das falas”, acrescentando que “Consequentemente, constituirá um atentado ao direito à liberdade ideológica, científica, de expressão e de livre circulação das ideias, todo intento por parte dos poderes públicos de seiturar, com o galho da defesa a ultrança duma normativização oficial, posturas linguísticas que, não apartando-se do seio comum de origem e convivência idiomáticas, se amossem como discrepantes”. 

Pró-AGLP http://www.pglingua.org/noticias/informante/6223-parecer-juridico-da-pro-aglp-sobre-o-uso-da-ortografia-portuguesa-na-galiza

Assim, se se alcançar binormativismo -que ao nosso ver seria a situação ótima para o idioma- e se reconhecer que o galego faz parte da Lusofonia, mesmo desde as posições oficialistas, poderíamos até encontrar com que o gráfico do padrão português deve ser refeito assim:

padrao05

Portanto, quando se fala no subpadrão galego (não vamos agora referir-nos ao parapadrão), convém ter presentes vários elementos. A primeira questão é que o subpadrão galego tem de ser legível em galego. Isto quer dizer que a forma uma tem de ser lida à galega, isto é, /uηa/ e não /uma/. A seguir, entramos nos elementos que supõem uma certa dificuldade, principalmente a morfologia verbal, que é bastante diferente entre galego e português:

  1. pus >< pusem [puxē]: referido às terminações tónicas dos perfeitos. Outros casos: quisem, fizem, tivem, estivem, etc.
  2. disse >< dixo: a conservação da vogal -o em galego na 3PS dos pretéritos fortes, como em trouxo, fezo [‘fešo]
  3. faço >< fago, e como eles posso >< podo, meço ><mido, posso >< podo, etc.
  4. falaste >< falache: a 2ª PS dos pretéritos
  5. falaram >< falárom: a conservação da distinção que se faz em galego entre falaram e falárom.

Seria bom unificar os resultados ortográficos com o português dos tempos de perfeito irregulares, que em galego são pronunciados com /š/:

  1. quisem, quiseche, quiso…
  2. pusem, puseche, pôso…
  3. fizem, fizeche, fezo…

Mas:

  1. dixem, dixeche, dixo…

Esta distinção responde, aliás, a um critério etimológico. Para além disso, é crucial manter em galego a diferença entre te e che exclusiva do galego. No caso do parapadrão seria importante manter a distinção, grafando che como te.

Por outro lado, é conveniente distinguir os casos de português <s(s)> ou <c> dos casos de galego <x>: pêxego, côxegas, xordo, páxaro.

Assim, só o tempo dirá se chegaremos a esta situação ou se, infelizmente, o galego passará a ser uma lembrança saudosa e romântica de uma outra língua morta.

© Xavier Frias Conde,  em Praga, a 4 de maio de 2019

 

A etiquetagem como ferramenta no estudo das formas de tratamento

Introdução

O estudo das formas de tratamento desde a abordagem funcional categorial é global. Isso quer dizer que se atenderá nem só para os aspetos sociopragmáticos, que são os habituais, mas também para os morfossintáticos que afetam as formas de tratamento (FT), bem como ao vocativo, porque ambos os elementos estão intimamente ligados e a sua análise segue umas pautas muito similares.

A abordagem funcional categorial tem como principal ferramenta as etiquetas. Cada uma das formas estudadas é individualizada por meio de um sistema de etiquetagem exclusivo. Serão utilizadas tantas etiquetas como for necessário para individualizar e caracterizar cada uma das formas estudadas.

Nesse contexto, as FT devem ser estudadas desde vários eixos. Por um lado, o pragmático-gramatical; por outro, o psicossocial. Aliás, o primeiro eixo é o que poderíamos denominar constante, pois é pré-estabelecido e responde a uns cânones pragmáticos bastante bem delimitados, enquanto o segundo não costuma responder a usos pragmáticos, mas de preferência de caráter psicossocial e, por vezes, é espontâneo.

Etiquetagem primária: grau, paradigma e referente

O grupo de etiquetas pragmático-gramatical responde a três critérios: grau [G] (de formalidade), paradigma [Π] e referente [R], sendo o primeiro totalmente pragmático, o segundo gramatical −morfossintático− e o terceiro misto. As variações dentro do espanhol são imensas, bem como em galego-português. Vamos analisar alguns exemplos para ver como é a etiquetagem num primeiro momento. Para isso, tomamos o espanhol europeu como modelo (ES_ES) e analisamos as formas e usted:

ES_ES

  • : G [−formal] Π [+2PS] R [+2PS]
  • usted: G [+formal] Π [+3PS] R [+2PS]

Para o plural resulta:

ES_ES

  • vosotros: G [−formal] Π [+2PP] R [+2PP]
  • ustedes: G [+formal] Π [+3PP] R [+2PP]

Porém, quando se trata do espanhol americano (ES_AM), o paradigma do plural é diferente:

ES_AM

  • ustedes: G [~formal] Π [+3PP] R [+2PP]

Paradigmas compensados e descompensados

Se se comparam ambos os paradigmas, é possível apreciar que há coincidências quanto ao paradigma e à referência, mas a diferença de grau fica anulada em espanhol americano, que não conhece a forma vosotros.

Graficamente, o paradigma espanhol é compensado, é dizer, tem o mesmo número de formas em singular e em plural. Em troca, o paradigma americano geral é descompensado, por ter duas formas em singular e apenas uma em plural.

ES_ES

ES_ES

SINGULAR PLURAL

− FORMAL

vosotros

+ FORMAL

usted

ustedes

ES_AM

SINGULAR

PLURAL

− FORMAL

ustedes

+ FORMAL

usted

ustedes

Mas os paradigmas podem ser ainda mais descompensados. Este é o paradigma do galego-português de Xalma, que responde ao paradigma medieval, nem só em galego-português, mas também em castelhano:

PT_XALMA

SINGULAR

PLURAL

− FORMAL

tu

vós

+ FORMAL

vós

vós

Não obstante, a descompensação entre o singular e o plural pode ser enorme. O português europeu (PT_PT) apresenta o seguinte paradigma, onde são apenas representados os pronomes, para o qual, para além da etiqueta de [~formal], cabe adicionar uma segunda etiqueta de tipo pragmático, neste caso [~distância], entendida principalmente como “distância social”

PT_PT SINGULAR PLURAL
− FORMAL – DISTÂNCIA tu vocês
+ FORMAL – DISTÂNCIA você vocês
+ FORMAL + DISTÂNCIA o senhor os senhores

No entanto, este paradigma é incompleto, visto que falta uma forma que responde às etiquetas [−formal] e [+distância]. A lacuna que o ocupa não é um pronome como tal, mas um SN que funciona como pronome ad hoc, ao qual passamos a nos referir a seguir.

Pronominalização ad hoc

Portanto, um fenómeno interesantíssimo é o que denominamos pronominalização ad hoc, que consiste no uso de um SN como pronome pessoal “ad hoc”, é dizer, sem que se gramaticalize. A questão é como distinguir um SN de um SN pronominalizado ad hoc. A diferença radica em que o primeiro tem um Π [+3PS] e um R [+3PS], enquanto que o segundo, em contraste, apresenta uma etiquetagem Π [+3PS] e um R [+2PS]. No plano fónico são indistinguíveis, a diferença é pragmática, onde o SN pronominalizado pode funcionar como vocativo:

(1) El profe no quiere tomar hoy café, ¿verdad? −> *Profe, pro no quiere hoy tomar café, ¿verdad? >  Π [+3PS] e um R [+3PS]

(2) El profe no quiere tomar hoy café, ¿verdad? −> Profe, pro no quiere hoy tomar café, ¿verdad? > Π [+3PS] e um R [+2PS]

Nos diassistemas ibéricos existem dois tipos de pronominalização ad hoc. O primeiro encontra-se no português europeu e o segundo no espanhol colombiano (ES_CO). De facto, os exemplos em cima mencionados respondem a casos do espanhol colombiano. A pronominalização ad hoc não se pode confundir com a pronominalização permanente. Esta segunda consiste num fenómeno pelo qual um SN chega a se tornar um pronome permanentemente. Tal é a origem de usted < vusted < vuestra merced em espanhol e de você < vossa mercê em português, mas também mais recentemente a gente em português brasileiro (PT_BR) ou o tio em galego (PT_GL) e português europeu, ou o senhor em português.

A pronominalização ad hoc portuguesa europeia é feita com um nome próprio precedido de um artigo:

(3) O João não quer hoje café, certo? −> Ó João, pro não quer café, certo? > Π [+3PS] e um R [+2PS]

Novamente, como nos exemplos de encima, é distinto de:

(4) O João não quer hoje café, certo? −> *Ó João, pro não quer café, certo? > Π [+3PS] e um R [+3PS]

Portanto, o paradigma do português europeu, já com a pronominalização ad hoc, resulta:

PT_PT SINGULAR PLURAL
− FORMAL – DISTÂNCIA tu vocês
– FORMAL + DISTÂNCIA SN vocês
+ FORMAL – DISTÂNCIA você vocês
+ FORMAL + DISTÂNCIA o senhor os senhores

Este sistema permite, portanto, etiquetar cada uma das formas anteriores do seguinte modo:

  • tu: G: [−formal], [−distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • SN: G: [−formal], [+distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • você: G: [+formal], [−distância]; Π [2PS]; R [3PS].
  • o senhor: G: [+formal], [+distância]; Π [2PS]; R [3PS].
  • vocês: G: [~formal], [~distância]; Π [3PP]; R [2PP].
  • os senhores: G: [+formal], [+distância]; Π [3PP]; R [2PP].

A pronominalização ad hoc que se dá em, por exemplo, certos sistemas próprios da fala de Bogotá (na capital colombiana convivem vários sistemas paradigmáticos) é semelhante com a do PT_PT, mas com a diferença que o SN não é um nome próprio, mas um nome comum também com artigo, tal como foi mostrado nos exemplos (1) e (2). Deste modo, o modelo do espanhol bogotano pode ser representado assim:

    SINGULAR PLURAL
− FORMAL – DISTÂNCIA tu ustedes
– FORMAL + DISTÂNCIA SN ustedes
+ FORMAL – DISTÂNCIA usted ustedes
+ FORMAL + DISTÂNCIA [sumerced] ustedes

Com o sistema de etiquetagem, podem-se também distinguir outras formas como o uso de vos e próprio da serra equatoriana e da região de Cali.

ES_EC

  • vos: G: [−formal], [+íntimo] [−distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • : G: [−formal], [−íntimo] [−distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • usted: G: [+formal], [+distância]; Π [3PS]; R [2PS].

Etiquetagem secundária

A etiquetagem secundária responde a questões que escapam à etiquetagem primária. Existe uma imensa quantidade de casos que não respondem aos protocolos sociais primários que requerem de outras explicações. Assim, por exemplo, no Equador é frequente o uso de usted em contextos que poderiam ser definidos como psicossociais. É, portanto, frequente que entre os casais se utilize o ustedeio que, paradoxalmente, é um signo de intimidade, enquanto que o voseio com os amigos também o é, mas sem que haja uma relação sentimental. De este modo, haverá um ustedeio que responde à etiqueta [+casal].

Acontece algo parecido com o ustedeio que se utiliza com as crianças, amiúde com carácter de distância, que poderia ser etiquetado como [+infantil], diferente do ustedeio de chateio, que se dá entre pessoas que se tuteiam (o vosseiam), mas que num momento dado, por estar zangado, se torna ustedeio, neste caso [+chateio].

Notas acerca do vocativo

O vocativo é também um modo de tratamento, pelo qual o sistema de etiquetagem funciona também com ele. Nos estudos acerca de este elemento, mal há uma abordagem morfológica no início, e pragmática depois, mas o vocativo tem repercussões sintáticas, que sim são recolhidas na GFC.

Assim, por exemplo, as formas de tratamento podem, em certos casos, passar de sujeitos para vocativos, como em:

(5) Sumerced1, ¿p1 nos puede acompañar?

Contudo, o mais frequente é o caso contrário, é dizer, a passagem do vocativo para o sujeito:

(6) p1 ¿El profe1 nos puede acompañar? < Profe, ¿pro nos puede acompañar?

Aliás, o vocativo admite todo género de etiquetas que o caracterizam.

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