Mais sobre Galego e Lusofonia: a padronização pendente

A questão de qual a relação do galego com a Lusofonia, do ponto de vista reintegracionista, ainda dará para escrever muitas páginas e manter muitas discussões. No entanto, convém fixar alguns conceitos, como onde ficaria uma norma galega no padrão do idioma português, visto que a realidade, que é muito teimosa, até agora indica que há mais de uma proposta e que o chamado movimento reintegracionista é muito heterogéneo, o qual, embora pareça um problema, não o é, porque favorece que não existe uma só norma rígida reintegracionista para o galego, o qual, nos dias de hoje, é algo impossível e que seria nocivo para o idioma e os seus falantes.

Portanto, antes de iniciarmos as ditas questões específicas de qual a relação normativa do galego com a Lusofonia, é preciso esclarecer alguns conceitos, concretamente a que nos referimos quando falamos em padrão, parapadrão e subpadrão, visto que, na própria sociolinguística da padronização nem todos concordam com a definição destes conceitos.

Em primeiro lugar, o padrão é o conceito hierarquicamente superior. O padrão é o modelo de lingua escrita no ponto mais abstrato, com umas regras para a escrita muito concretas, e uns paradigmas.

Língua-padrão é a maneira de falar e escrever que é considerada correcta por uma dada comunidade. Historicamente, é uma modalidade linguística que, servindo para controlar a variação dialectal inerente aos sistemas linguísticos, se tornou um meio de comunicação unificado nos ‘media’ e no ensino a estrangeiros (David Crystal A Dictionary of Linguistics and Phonetics, s/v).

Existe, portanto, um padrão do português, como existe um padrão para o espanhol, o inglês, o francês, etc. Todos estes idiomas possuem uma língua-padrão.

Mas, ao mesmo tempo, todas estas línguas não se falam, nem inclusive se escrevem, igual em toa a parte. No caso do inglês, até encontramos grafias diferentes segundo o país (cf. honour (GB) ~ honor (US); realise (GB) ~ realize (GB)), mas as diferenças léxicas são imensas entre os distintos territórios que falam as ditas línguas, sem por isso dizer que uma variante é melhor ou mais correta do que outras, daí que falemos em línguas pluricêntricas quanto ao seu padrão linguístico, onde cada concretização do dito padrão é o parapadrão nacional (ou regional).

Ainda nalguns casos, territórios por norma reduzidos, requerem, por motivos sócio-políticos, de uma adaptação ainda maior da norma, em cujo caso falamos de sub-normas. Hierarquicamente reflete-se assim:

Padrão linguístico

Parapadrão A

Parapadrão B

Subpadrão A 1 Subpadrão A2 Subpadrão B1

Subpadrão B2

Para o português, há portanto um só padrão, mas visto que sim é uma língua pluricêntrica, existem normas. Entre elas, reconhecemos principalmente duas: a norma europeia (parapadrão lusitano) e a norma americana (parapadrão brasileiro), mas nem só existem estas, pois os outros países africanos de expressão portuguesa têm de facto a sua própria norma. Cabe até perguntar-se se se pode falar em normas asiáticas.

Nesta situação, oficialmente o padrão do português é diferente do padrão do galego, o qual envolve que, oficialmente, são duas línguas diferentes. Portanto, se não atendermos para o galego como parte da Lusofonia, o quadro normativo do português pode ser refletido assim:

padrao00

Como dissemos em cima, deveriam ser incluídas o restos de variantes africanas e também asiáticas, mas deixamos fora por questão de espaço.

No entanto, se aceitarmos que o galego faz parte da Lusofonia, então o gráfico anterior precisa de um quadrinho novo:

padrao01

E então, a que faz referência esse parapadrão galego? Existe este parapadrão desde 1985 na sua primeira versão, com formas diferentes adaptações e modificações. Ele é conhecido como Galego Internacional. Existe porque para a maioria dos reintegracionistas o parapadrão português não serve para a Galiza nem como língua administrativa, nem educativa, embora sim possa servir como língua literária. De facto, a forma mais próxima deste parapadrão do português lusitano é  conhecida como Português da Galiza. Mas como acabamos de afirmar, existem duas propostas de padronização do galego internacional. A primeira é a promovida pela Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) que se identifica com a visão de Português da Galiza. Por sua parte, a segunda proposta é a que sustém a Associaçom Galega Da Língua (AGAL) que se identifica com a visão do Galego Internacional. No entanto, não se pode falar em duas propostas totalmente diferentes, mas de um contínuum que permite a escolha de formas entre o português e o galego comum (no sentido que utilizava Carvalho Calero).

Porém, a inclusão de duas formas coexistentes em galego, mas que respondem a uma só realidade social, envolve que o galego precise dalgo mais do que um parapadrão. Precisa também de um subpadrão. Se calhar, o modelo catalão possa servir de referência, visto que os três níveis hierárquicos assinalados em cima existem neste diassistema:

padrao02

É interessante observar como os subpadrões da Franja de Poente em Aragão e do Alguer na Sardenha têm um status próprio, mas são considerados subpradrões, sem mais pretensão, para um uso local. Embora os três subpadrões estejam no mesmo nível, é inegável que o parapadrão do catalão da Catalunha é que tem um status mais internaciona e até é o oficial num Estado que tem o catalão como língua oficial: Andorra.

Se incorporarmos o parapadrão do Português da Galiza e o subpadrão do Galego Internacional, o gráfico anterior tem de ser refeito assim:

padrao04

Contudo, ultimamente tem-se iniciado um debate na Galiza muito interessante. Está-se a falar da hipótese do binormativismo, isto é, que na Galiza possam coabitar duas normas para o galego (NORMIGAL), a da RAG/ILG que tem um valor mais ou menos oficial, junto com a reintegracionista (NORMINTERGAL). O debate está muito vivo hoje. Assim diz Xosé Ramón Freixeiro Mato, provavelmente a maior autoridade viva em Linguística Galega:

Por que não admitirmos que o galego possui uma norma própria ou interna, de uso habitual na administração e no ensino, e outra norma de uso internacional, a (galego-)portuguesa, que também deveria ser apreendida no ensino regrado e não discriminada ou reprimida? O nosso caso não seria muito diferente do de Noruega, com a variante ‘nynorsk’ ou norueguês tradicional e ‘bokmal’ ou norueguês mais próximo do dinamarquês, ambas as normas a gozarem de reconhecimento oficial e de aprendizagem obrigatória no ensino, a pesar de a primeira só ser escolhida por 13% dos centros escolares como prioritária e por 7.5% da população norueguesa como a sua norma escrita. Teríamos assim no galego uma norma oficial maioritária, a atualmente vigorante, e a vantagem de uma segunda norma que faria a população escolar –e a mais longo prazo toda a sociedade galega– plenamente competente numa das línguas oficiais da Comunidade Europeia e numa das mais faladas no mundo. Xosé Ramón Freixeiro Mato. https://www.sermosgaliza.gal/opinion/xose-ramon-freixeiro-mato/sermos-galiza/20180402143259067486.html

Se, aliás, se tomar em conta que a norma RAG/ILG, embora funcione como oficial, não é de facto oficial, a situação na Galiza é paradoxal, porque há uma norma que funciona como oficial sem o ser, e coabita com outra que é oficialmente marginalizada. Quanto ao valor oficial da NORMIGAL:

No caso da Galiza, a Disposição adicional da Lei 3/1983, de 15 de junho, de normalização linguística, refere-se à correção idiomática para estimar “como critério de autoridade o estabelecido pola Real Academia Galega” indicando claramente que a opinião desse organismo é apenas um critério de autoridade que não se define como único ou exclusivo, nem como obrigatório para os administrados e muito menos como oficial.

A Sentença 1992/1993, de 4 de maio, do TSJG, confirmada pela sentença do Tribunal Supremo de 2 de outubro de 2000, defende a legitimidade do uso de “outras regras ortográficas do idioma galego assumidas e praticadas em eidos intelectuais e por capas sociais que atopam o seu fundamento e legitimidade em razões históricas, consuetudinárias, geográficas e de polimorfismo próprio das falas”, acrescentando que “Consequentemente, constituirá um atentado ao direito à liberdade ideológica, científica, de expressão e de livre circulação das ideias, todo intento por parte dos poderes públicos de seiturar, com o galho da defesa a ultrança duma normativização oficial, posturas linguísticas que, não apartando-se do seio comum de origem e convivência idiomáticas, se amossem como discrepantes”. 

Pró-AGLP http://www.pglingua.org/noticias/informante/6223-parecer-juridico-da-pro-aglp-sobre-o-uso-da-ortografia-portuguesa-na-galiza

Assim, se se alcançar binormativismo -que ao nosso ver seria a situação ótima para o idioma- e se reconhecer que o galego faz parte da Lusofonia, mesmo desde as posições oficialistas, poderíamos até encontrar com que o gráfico do padrão português deve ser refeito assim:

padrao05

Portanto, quando se fala no subpadrão galego (não vamos agora referir-nos ao parapadrão), convém ter presentes vários elementos. A primeira questão é que o subpadrão galego tem de ser legível em galego. Isto quer dizer que a forma uma tem de ser lida à galega, isto é, /uηa/ e não /uma/. A seguir, entramos nos elementos que supõem uma certa dificuldade, principalmente a morfologia verbal, que é bastante diferente entre galego e português:

  1. pus >< pusem [puxē]: referido às terminações tónicas dos perfeitos. Outros casos: quisem, fizem, tivem, estivem, etc.
  2. disse >< dixo: a conservação da vogal -o em galego na 3PS dos pretéritos fortes, como em trouxo, fezo [‘fešo]
  3. faço >< fago, e como eles posso >< podo, meço ><mido, posso >< podo, etc.
  4. falaste >< falache: a 2ª PS dos pretéritos
  5. falaram >< falárom: a conservação da distinção que se faz em galego entre falaram e falárom.

Seria bom unificar os resultados ortográficos com o português dos tempos de perfeito irregulares, que em galego são pronunciados com /š/:

  1. quisem, quiseche, quiso…
  2. pusem, puseche, pôso…
  3. fizem, fizeche, fezo…

Mas:

  1. dixem, dixeche, dixo…

Esta distinção responde, aliás, a um critério etimológico. Para além disso, é crucial manter em galego a diferença entre te e che exclusiva do galego. No caso do parapadrão seria importante manter a distinção, grafando che como te.

Por outro lado, é conveniente distinguir os casos de português <s(s)> ou <c> dos casos de galego <x>: pêxego, côxegas, xordo, páxaro.

Assim, só o tempo dirá se chegaremos a esta situação ou se, infelizmente, o galego passará a ser uma lembrança saudosa e romântica de uma outra língua morta.

© Xavier Frias Conde,  em Praga, a 4 de maio de 2019

 

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A etiquetagem como ferramenta no estudo das formas de tratamento

Introdução

O estudo das formas de tratamento desde a abordagem funcional categorial é global. Isso quer dizer que se atenderá nem só para os aspetos sociopragmáticos, que são os habituais, mas também para os morfossintáticos que afetam as formas de tratamento (FT), bem como ao vocativo, porque ambos os elementos estão intimamente ligados e a sua análise segue umas pautas muito similares.

A abordagem funcional categorial tem como principal ferramenta as etiquetas. Cada uma das formas estudadas é individualizada por meio de um sistema de etiquetagem exclusivo. Serão utilizadas tantas etiquetas como for necessário para individualizar e caracterizar cada uma das formas estudadas.

Nesse contexto, as FT devem ser estudadas desde vários eixos. Por um lado, o pragmático-gramatical; por outro, o psicossocial. Aliás, o primeiro eixo é o que poderíamos denominar constante, pois é pré-estabelecido e responde a uns cânones pragmáticos bastante bem delimitados, enquanto o segundo não costuma responder a usos pragmáticos, mas de preferência de caráter psicossocial e, por vezes, é espontâneo.

Etiquetagem primária: grau, paradigma e referente

O grupo de etiquetas pragmático-gramatical responde a três critérios: grau [G] (de formalidade), paradigma [Π] e referente [R], sendo o primeiro totalmente pragmático, o segundo gramatical −morfossintático− e o terceiro misto. As variações dentro do espanhol são imensas, bem como em galego-português. Vamos analisar alguns exemplos para ver como é a etiquetagem num primeiro momento. Para isso, tomamos o espanhol europeu como modelo (ES_ES) e analisamos as formas e usted:

ES_ES

  • : G [−formal] Π [+2PS] R [+2PS]
  • usted: G [+formal] Π [+3PS] R [+2PS]

Para o plural resulta:

ES_ES

  • vosotros: G [−formal] Π [+2PP] R [+2PP]
  • ustedes: G [+formal] Π [+3PP] R [+2PP]

Porém, quando se trata do espanhol americano (ES_AM), o paradigma do plural é diferente:

ES_AM

  • ustedes: G [~formal] Π [+3PP] R [+2PP]

Paradigmas compensados e descompensados

Se se comparam ambos os paradigmas, é possível apreciar que há coincidências quanto ao paradigma e à referência, mas a diferença de grau fica anulada em espanhol americano, que não conhece a forma vosotros.

Graficamente, o paradigma espanhol é compensado, é dizer, tem o mesmo número de formas em singular e em plural. Em troca, o paradigma americano geral é descompensado, por ter duas formas em singular e apenas uma em plural.

ES_ES

ES_ES

SINGULAR PLURAL

− FORMAL

vosotros

+ FORMAL

usted

ustedes

ES_AM

SINGULAR

PLURAL

− FORMAL

ustedes

+ FORMAL

usted

ustedes

Mas os paradigmas podem ser ainda mais descompensados. Este é o paradigma do galego-português de Xalma, que responde ao paradigma medieval, nem só em galego-português, mas também em castelhano:

PT_XALMA

SINGULAR

PLURAL

− FORMAL

tu

vós

+ FORMAL

vós

vós

Não obstante, a descompensação entre o singular e o plural pode ser enorme. O português europeu (PT_PT) apresenta o seguinte paradigma, onde são apenas representados os pronomes, para o qual, para além da etiqueta de [~formal], cabe adicionar uma segunda etiqueta de tipo pragmático, neste caso [~distância], entendida principalmente como “distância social”

PT_PT SINGULAR PLURAL
− FORMAL – DISTÂNCIA tu vocês
+ FORMAL – DISTÂNCIA você vocês
+ FORMAL + DISTÂNCIA o senhor os senhores

No entanto, este paradigma é incompleto, visto que falta uma forma que responde às etiquetas [−formal] e [+distância]. A lacuna que o ocupa não é um pronome como tal, mas um SN que funciona como pronome ad hoc, ao qual passamos a nos referir a seguir.

Pronominalização ad hoc

Portanto, um fenómeno interesantíssimo é o que denominamos pronominalização ad hoc, que consiste no uso de um SN como pronome pessoal “ad hoc”, é dizer, sem que se gramaticalize. A questão é como distinguir um SN de um SN pronominalizado ad hoc. A diferença radica em que o primeiro tem um Π [+3PS] e um R [+3PS], enquanto que o segundo, em contraste, apresenta uma etiquetagem Π [+3PS] e um R [+2PS]. No plano fónico são indistinguíveis, a diferença é pragmática, onde o SN pronominalizado pode funcionar como vocativo:

(1) El profe no quiere tomar hoy café, ¿verdad? −> *Profe, pro no quiere hoy tomar café, ¿verdad? >  Π [+3PS] e um R [+3PS]

(2) El profe no quiere tomar hoy café, ¿verdad? −> Profe, pro no quiere hoy tomar café, ¿verdad? > Π [+3PS] e um R [+2PS]

Nos diassistemas ibéricos existem dois tipos de pronominalização ad hoc. O primeiro encontra-se no português europeu e o segundo no espanhol colombiano (ES_CO). De facto, os exemplos em cima mencionados respondem a casos do espanhol colombiano. A pronominalização ad hoc não se pode confundir com a pronominalização permanente. Esta segunda consiste num fenómeno pelo qual um SN chega a se tornar um pronome permanentemente. Tal é a origem de usted < vusted < vuestra merced em espanhol e de você < vossa mercê em português, mas também mais recentemente a gente em português brasileiro (PT_BR) ou o tio em galego (PT_GL) e português europeu, ou o senhor em português.

A pronominalização ad hoc portuguesa europeia é feita com um nome próprio precedido de um artigo:

(3) O João não quer hoje café, certo? −> Ó João, pro não quer café, certo? > Π [+3PS] e um R [+2PS]

Novamente, como nos exemplos de encima, é distinto de:

(4) O João não quer hoje café, certo? −> *Ó João, pro não quer café, certo? > Π [+3PS] e um R [+3PS]

Portanto, o paradigma do português europeu, já com a pronominalização ad hoc, resulta:

PT_PT SINGULAR PLURAL
− FORMAL – DISTÂNCIA tu vocês
– FORMAL + DISTÂNCIA SN vocês
+ FORMAL – DISTÂNCIA você vocês
+ FORMAL + DISTÂNCIA o senhor os senhores

Este sistema permite, portanto, etiquetar cada uma das formas anteriores do seguinte modo:

  • tu: G: [−formal], [−distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • SN: G: [−formal], [+distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • você: G: [+formal], [−distância]; Π [2PS]; R [3PS].
  • o senhor: G: [+formal], [+distância]; Π [2PS]; R [3PS].
  • vocês: G: [~formal], [~distância]; Π [3PP]; R [2PP].
  • os senhores: G: [+formal], [+distância]; Π [3PP]; R [2PP].

A pronominalização ad hoc que se dá em, por exemplo, certos sistemas próprios da fala de Bogotá (na capital colombiana convivem vários sistemas paradigmáticos) é semelhante com a do PT_PT, mas com a diferença que o SN não é um nome próprio, mas um nome comum também com artigo, tal como foi mostrado nos exemplos (1) e (2). Deste modo, o modelo do espanhol bogotano pode ser representado assim:

    SINGULAR PLURAL
− FORMAL – DISTÂNCIA tu ustedes
– FORMAL + DISTÂNCIA SN ustedes
+ FORMAL – DISTÂNCIA usted ustedes
+ FORMAL + DISTÂNCIA [sumerced] ustedes

Com o sistema de etiquetagem, podem-se também distinguir outras formas como o uso de vos e próprio da serra equatoriana e da região de Cali.

ES_EC

  • vos: G: [−formal], [+íntimo] [−distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • : G: [−formal], [−íntimo] [−distância]; Π [2PS]; R [2PS].
  • usted: G: [+formal], [+distância]; Π [3PS]; R [2PS].

Etiquetagem secundária

A etiquetagem secundária responde a questões que escapam à etiquetagem primária. Existe uma imensa quantidade de casos que não respondem aos protocolos sociais primários que requerem de outras explicações. Assim, por exemplo, no Equador é frequente o uso de usted em contextos que poderiam ser definidos como psicossociais. É, portanto, frequente que entre os casais se utilize o ustedeio que, paradoxalmente, é um signo de intimidade, enquanto que o voseio com os amigos também o é, mas sem que haja uma relação sentimental. De este modo, haverá um ustedeio que responde à etiqueta [+casal].

Acontece algo parecido com o ustedeio que se utiliza com as crianças, amiúde com carácter de distância, que poderia ser etiquetado como [+infantil], diferente do ustedeio de chateio, que se dá entre pessoas que se tuteiam (o vosseiam), mas que num momento dado, por estar zangado, se torna ustedeio, neste caso [+chateio].

Notas acerca do vocativo

O vocativo é também um modo de tratamento, pelo qual o sistema de etiquetagem funciona também com ele. Nos estudos acerca de este elemento, mal há uma abordagem morfológica no início, e pragmática depois, mas o vocativo tem repercussões sintáticas, que sim são recolhidas na GFC.

Assim, por exemplo, as formas de tratamento podem, em certos casos, passar de sujeitos para vocativos, como em:

(5) Sumerced1, ¿p1 nos puede acompañar?

Contudo, o mais frequente é o caso contrário, é dizer, a passagem do vocativo para o sujeito:

(6) p1 ¿El profe1 nos puede acompañar? < Profe, ¿pro nos puede acompañar?

Aliás, o vocativo admite todo género de etiquetas que o caracterizam.

[Versão em espanhol desta postagem para descarregar em PDF]

A padronização do quéchua no Equador: algumas reflexões

Lago Quilotoa, Cotopaxi (Equador)

Limiar

A minha primeira visita ao Equador foi em junho de 2015. Naquela altura foi que tive o meu primeiro encontro com o quéchua de uma maneira totalmente fortuita. Aconteceu que eu visitava um mercado de frutas ao ar livre perto da embaixada espanhola quando uma anciã se me aproximou e começou a me falar em quéchua, enquanto tentava vender-me alguma fruta que para mim era desconhecida. Para além de alguma locução em quéchua, era a primeira vez que ouvia a língua ao natural. Fiquei pampo, mas foi uma sensação preciosa, encontrei a língua harmoniosa e lírica, se calhar como o galego.

Variedades do quéchua segundo a Wikipedia

Depois daquele episódio, voltei ouvir o quéchua já com mais normalidade em 2017 durante várias celebrações do equinócio em Quito. Porém, já desde a minha primeira visita comecei a procurar materiais de quéchua, se calhar com a intenção de apreender sozinho os rudimentos da língua. Mas então surgiu a questão: que variante dela? Eis o primeiro problema.

O quéchua como diassistema

Trata-se, portanto, de uma língua com uma estandardização desigual que até para muitos estudiosos não é uma língua, mas um diassistema (falam em “família de línguas,” mas este é um conceito pouco rigoroso). É bem certo que o diassistema quéchua se estende pela Colômbia, o Equador, o Peru, a Bolívia e a Argentina, como se vê no mapa anexo. Contudo, pode-se afirmar que a evolução das variantes dificulta tanto a compreensão dos falantes dos extremos até torná-la impossível? Pessoalmente não tenho resposta para isso, mas tenho a impressão que não há tanta distância como para negar a unidade linguística.

Contudo, acho que a atual situação de fragmentação está a resultar perigosa para o quéchua. O que de facto se está a aplicar é uma política do “divide e vencerás”. A fragmentação do quéchua não pode ser boa para a língua. Contra a padronização global alçam-se vozes que não querem perder as variantes locais do quéchua, o qual é muito compreensível, mas está-se a partir de uma questão que na normativização é muito clara: não se fala como se escreve.

Estou ciente que as receitas de uns lugares amiúde não servem para outros, mas sim é certo que há questões metodológicas que foram implementadas noutros lugares com línguas ameaçadas e que sim podem ser efetivas (pelo menos parcialmente) em sítios muito remotos. A minha experiência com a normativização é exclusivamente europeia, mas o elemento técnico deveria ser útil com qualquer idioma. O que vou a expor a seguir são algumas ideias baseadas na minha experiências europeia que acho que podem ter cabida no caso do quéchua, mais especificamente no Equador.

O padrão peruano para o quéchua

Existe um padrão ortográfico quéchua no Peru da mão de Rodolfo Cerrón Palomino que começou pela ortografia unificada. Isto faz com que haja grafias peruanas que podem servir na Bolívia, mas que não se utilizam no Equador, principalmente toda a série de fonemas como: k, k’, kh; p, p’, ph; t, t’, th; q, q’, qh, onde se distingue entre simples, aspirado e ejetivo, o qual não acontece no quéchua equatoriano, onde há de facto só três destas consoantes: k, p, t, pois mesmo kq não se distinguem. O alfabeto completo do sistema padrão peruano, tomado da variedade do Cusco é assim:

alfabeto01

As consoantes aspiradas e ejetivas:

alfabeto02

Resultado de imagen para quechua phrasebook travel

Pessoalmente opino que o primeiro passo é a unidade ortográfica entre as variantes quéchuas. Se isto é conseguido, o resto é mais uma questão pedagógica. Estou ciente que uma das questões que logo surgirão é porque complicar tanto a ortografia do quéchua equatoriano. O argumento é assim: se no quéchua equatoriano existe apenas /k/, porquê escreverem <k>, <k’> e <kh>? A questão é a mesma se preguntarmos porque em espanhol americano a grafia /s/ pode ser escrita <s>, <z> e <c>? Ou porque escrever <b> e <v> para /b/. Cá topamo-nos com que o que é aceite para uma língua maioritária e internacional, não o é para uma língua ameaçada. O argumento, porém, serve para as duas línguas na mesma, nem só para a internacional.

Jižní a Střední Amerika - jazykový průvodceO modelo peruano, mais concretamente o do Cusco, é precisamente aquele que se emprega nos principais guias de conversa. Eu tenho dois, um de quéchua-inglês e outro de quéchua-checo. Aliás, é preciso entender que não é possível fazer guias de conversa de cinquenta dialetos, nem os manuais escolares podem ter trinta versões. Mais tarde voltarei a falar desta questão.

O caso galego

O isolamento do quéchua equatoriano lembra-me muito à política oficialista que se está a dar com o galego e a teima com o independizar do português. Quando o galego é escrito com a ortografia espanhola com mínimas adaptações, as diferenças visuais com o português são múltiplas, mas quando é utilizada a ortografia internacional do galego (isto é, a portuguesa), então as diferenças são mínimas. Pode servir o presente quadro que já incluí numa postagem anterior como mostra:

gp

Para os oficialistas, o galego e o português são línguas diferentes e, portanto, no padrão foram procurados os elementos que mais se afastavam do português. No entanto, quando o galego é escrito segundo a norma portuguesa, a maioria das diferenças desaparecem. Isto não significa que o galego tenha de ser pronunciado da mesma maneira que o português. Existe uma unidade ortográfica, mas diversidade na pronunciação, como também acontece com o português do Brasil. É um caso de língua pluricéntrica.

Mais casos de pluricentrismo nos padrões linguísticos

A existência de um padrão único não responde à realidade de línguas padronizadas, como o catalão. Mas de facto a maioria das línguas são pluricéntricas, como o espanhol, português, francês, inglês, etc. Portanto, nestas línguas nem só existe um padrão uniforme, o que existe mesmo é um padrão com distintas normas.

A padronização das línguas segue frequentemente um destes três critérios:

  1. Escolha de um dialeto central que seja compreensível por todos, como é o caso do sardo na chamada LSC ou do asturiano central.
  2. Escolha da variante com mais prestígio, frequentemente o dialeto da capital, que é o caso das línguas estatais europeias.
  3. Criação de um padrão supradialetal que recolha elementos de todos os dialetos, mas que não tome como base nenhum concreto.

Se optarmos pelo dialeto do Cusco para todo o quéchua, este responderia ao critério 1, mas esta hipótese não parece fatível para o caso do quéchua.

Existe uma ideia errada que o padrão é homogéneo na maioria das línguas. As diferenças entre o português europeu e o brasileiro são notórias. No entanto, provavelmente o modelo das grandes línguas internacionais não seja um referente para o quéchua. Neste caso, acho que um modelo que pode servir parcialmente é o do catalão, cuja estrutura de padrão linguístico vem refletida no seguinte gráfico:

català

 

Portanto, desta forma é que o quéchua poderia ter uma estrutura semelhante do ponto de vista normativo. Como se vê encima, não há um padrão oficial (contudo, amiúde a norma catalã é tomada por tal por causas sócio-políticas).

Existiria um padrão quéchua, mas também normas locais, provavelmente uma por cada Estado e, dentro das normas, subnormas próprias para as variantes com mais traços significativos se isto for necessário. Não obstante, a hierarquização das normas responde a um critério fundamental já citado: a unidade ortográfica de toda a língua, pois ela é o andaime que torna possível a existência do padrão.

Em Quito, a 11 de março de 2018