Algumas ideias sobre normativização

1.1. Introdução 

As línguas românicas não-estatais tentam seguir o caminho das estatais quanto à construção dum padrão que lhes permita unir-se ao mundo das línguas de cultura. É bem claro que toda língua precisa duma língua padrão, porque a fragmentação dialetal não permite em qualquer caso a existência de escolarização, de produção literária a grande escala, a presença internacional da língua, a sua aprendizagem dentro e fora do país, etc. Semelha que é uma mania recente a de construir um padrão escrito, mas na verdade trata-se duma necessidade, porque na sociedade hodierna tudo tem um valor económico, do qual não se libra nem a própria língua. 

Ao mesmo tempo, cumpre ver como nem só o processo de normalização da língua afeta à própria língua, mas também os seus utentes. Ao longo destes últimos anos, tem-se visto que o processo normalizador afetou também a todas aquelas pessoas que sendo educadas na língua estatal quiseram nalgum momento da sua vida virar uma língua menor, bem amiúde a língua familiar que ainda se conserva numa ou duas gerações anteriores. 

1.2. Alguns conceitos sociolinguísticos clave 

A questão de que é uma língua não a pode responder a linguística, mas a sociolinguística. Embora ambas as disciplinas se interessem pelo mesmo objeto de estudo, para a língua, a sua abordagem é distinta de tudo. 

Para a sociolinguística existe uma pirâmide que podemos representar assim: 

  • Diassistema ou domínio linguístico: é uma coabitação de mais dum padrão, como é o caso do galego-português (ou do asturo-leonés com o mirandês e o asturiano), onde a unidade histórica é ainda notável. No caso galego, como estamos a ver, oficialmente se fala de duas línguas, embora que isto, como veremos mais para adiante, é algo discutido; contudo, sempre oficialmente, o galego tem um padrão oficial diferente do português. O diassistema pode também existir sem línguas estandardizadas, quando uma série de falas históricas são de uso total ou quase exclusivamente oral, mas com uma origem comum, como é o caso do franco-provençal, pois trata-se dum feixe de dialetos. 
  • Idioma: forma linguística que possui um padrão, formas lexicais, gramaticais e ortográficas estão fixadas normativamente. Nalguns casos, tratando-se de grandes línguas internacionais, por causa da grande diversidade entre as variantes, algumas línguas têm, dentro do seu padrão único, mais de uma norma. Isso acontece com o espanhol, que tem quase tantas normas como países, embora só possua um padrão. 
  • Dialeto: forma linguística não-estandardizada, embora possua formas gramaticais, lexicais e até ortográficas fixadas. O dialeto carece de oficialidade, à diferença da língua, e predomina no uso oral. Por norma está submetido a uma língua estatal que serve para usos oficiais, o cal ocasiona que a situação entre a língua e o dialeto seja de diglossia. A coabitação entre línguas num plano de igualdade é conhecido como bilinguismo

Em contraste, para a linguística a pirâmide é assim:

Um dialeto oficializado vira uma língua, o qual é algo que se baseia em questões sociais e políticas. O linguista não entra nessas disquisições, por isso o seu objeto de estudo não podem ser as línguas, mas as falas. Daí que o estudo das variantes das falas se concentre nos geoletos, como variantes esgalhadas dum tronco principal. 

1.3. Modelos de estandardização 

Desde que o catalão estabelecera o seu padrão atual em 1919 até a adopção do padrão mirandês em 1998, mesmo o discutido sardo LSU de 2001, refeito na LSC em 2005, há todo um caminho de estandardização nas línguas românicas menores, nos maioria dos casos realizado ao longo do século xx, com processos amiúde bem diferentes entre si. Não há –e isto cumpre afirmá-lo enfaticamente– receita nenhuma nem um modelo único. A elaboração dos padrões linguísticos tem-se feito desde situações muito variadas. Contudo, tentaremos sintetizar as principais tendências seguidas na criação de padrões modernos no conjunto da România. Ao mesmo tempo, poder-se-á comprovar como em muitos casos o padrão existente é um bocado difuso, porque existem padrões, subpradrões e normas a coabitarem dentro duma mesma língua. 

Podemos estabelecer cinco tipos de processos para explicar quais são as tradições na România no tocante às línguas menores: 

1.     Admissão de dois padrões: é o menos frequente. É o caso do asturiano e o mirandês, mas é também doadamente explicável se atendermos para o facto de os mirandeses susterem que falam uma língua independente do asturiano. 

2.      Escolha do dialeto com mais prestígio social: é o caso do asturiano central. 

3.      Escolha do dialeto com mais prestígio literário: teoricamente este foi o critério escolhido com a proposta da Língua Sarda Unificada. 

4.     Escolha duma variedade central: é o caso do languedociano respeito a outros dialetos occitanos. 

5.     Criação dum padrão supradialetal de compromisso: é o caso do galego ILG.  

Ora bem, estes critérios nem são sempre seguidos literalmente e às vezes podem encontrar-se combinações de dois ou mais destes critérios na elaboração do padrão. 

1.4. A questão do padrão e das variedades 

As grandes línguas românicas tiveram um processo de estandardização muito longo, que amiúde durou séculos. Aliás, estes processos não são nunca situações fechadas, porque a evolução natural das línguas obriga à revisão de conceptos normativos, como ocorreu sempre com as línguas estatais românicas. 

O modelo das línguas estatais foi copiado pelas não estatais, como era de esperar. Mas a fórmula não costumou funcionar, porque as situações das umas e das outras são radicalmente diferentes de diversos pontos de vista, que podem ser resumidos assim: 

  1. as línguas não-estatais não podem fazer em poucos anos o que as línguas estatais fizeram em séculos. 
  1. as línguas não-estatais não têm toda a força dos média e das escolas para realizar uma tarefa de conscientização normativa como têm as línguas estatais
  1. as línguas nõ-estatais estão muito mais fragmentadas do que as línguas estatais, de jeito que os dialetos têm um peso imenso que, às vezes, não é levado em conta e que, frequentemente, é a origem de conflitos posteriores. 

Assim, o emprego de fórmulas normais para as línguas maiores não acostuma funcionar com as línguas menores. Conviria, portanto, procurar soluções próprias para as línguas não-estatais, o qual aconteceu, com efeito, com a maioria delas, mas não com todas. 

Que há que fazer portanto? Já na primeira parte desta exposição analisamos as diferentes tendências da estandardização. Cada língua tem que procurar a sua própria. Todavia, o dilema que fica sobre a mesa é se seria possível aceitar a existência de variedades dentro dum padrão. Poder-se-ia pensar que as línguas românicas são blocos homogêneos, compactos, mas na realidade não acontece assim, porque se encontram variedades dentro de todas elas que não quebram a unidade do idioma. Se calhar, o caso mais conhecido seja o do português, que apresenta perfeitamente distinguidas uma norma brasileira diferente da europeia, onde alguns elementos chegam mesmo ao campo morfológico e sintático. As principais diferenças podem ser vistas no seguinte gráfico:  

Português europeu Português brasileiro 
comboio ou camioneta,
autocarro 
presidente da câmara municipal 
casa de banho 
saco 
trem 
ônibus 
prefeito 
banheiro 
bolsa 
dezassete 
dezanove 
dezessete 
dezenove 
fala-se português se fala português 
eu vejo-te eu vejo você 
ele vê-me ele me vê 
estou a falar estou falando 
tu você o senhor / a senhora você o senhor / a senhora 

Sem chegar a um extremo tão evidente como o anterior, as diferenças são também perceptíveis em espanhol entre a sua forma americana e a europeia, mas também em francês (francês, belga e suíça duma parte, quebequense da outra), onde há divergências subtis. Fora do âmbito românico, o inglês tem variantes próprias para as variedades britânica, norte-americana ou australiana, ainda que se possam adicionar mesmo subvariedades como a canadense, a neozelandesa, a sul-africana, etc. 

Portanto, se tudo aquilo é válido para as línguas estatais, se calhar, não pode servir também para as não-estatais, mais ainda quando no geral as diferenças dialetais estão ainda mais marcadas? 

Seria normal pensar que sim, que a existência de variedades normativas se torna uma necessidade na maioria dos casos, mas com uns critérios que cumpre estabelecer claramente do início. Portanto, há-de se justificar a existência de padrões junto com parapadrões e subpadrões para o caso de algumas línguas específicas, mas levando em conta que um padrão de referência é sempre necessário. 

1.5. Modelos teóricos de existência de padrões, parapadrões e subpadrões  

A dias de hoje, a terminologia arredor destes conceitos está a ser um bocado confusa. Trataremos, em primeiro lugar, de esclarecer em que sentido são empregados estes termos, mais concretamente parapadrão, que estamos a incluir aqui. 

Em princípio, os parapadrões coabitam ao mesmo nível, sem preponderância do um sobre o outro. Às vezes, há uma forma superior, chamada “superpadrão”, enquanto os subpadrões estão sempre supeditados a um padrão, sempre são formas subsidiárias dele. Graficamente, poderia representar-se assim: 

Os modelos teóricos que se podem reconhecer são estes: 

a) existência dum padrão único sem variante alguma.– é raro demais, mas encontra-se em línguas como o friulano. 

 b) existência dum padrão com duas ou mais subpadrões.– este é o caso occitano, que tem um padrão “amplo”, basicamente o languedociano, e depois existem padrões dialetais.  

c) existência dum superpadrão com parapadrões e subpadrões.– O catalão poderia ser uma mostra deste modelo, onde o padrão forte, ou superpadrão, é o da própria Catalunha, com um parapadrão próprio para Valência e outro para as Ilhas Baleares. Aliás, o catalão de Aragão e o do Alguer possuem o seu próprio subpadrão.  

d) existência de dois padrões por uma luta de tradições ou critérios diferentes, onde um deles geralmente é oficial ou oficioso.– é o caso também do occitano quando se faz referência à grafia tradicional ou à do félibrige, ou no caso galego quando se compara a grafia oficial com a reintegracionista.  

padrão A  padrão B 

e) existência de dois padrões porque duas línguas coabitem dentro dum mesmo domínio linguístico.– É o caso do galego e do português do ponto de vista oficial, ou do mirandês e o asturiano, que são, de facto, duas línguas diferentes. 

padrão 1  padrão 2 

De todos os jeitos, algumas das situações mostradas anteriormente podem coexistir nalgumas das línguas devanditas. Por exemplo, o galego atual, do ponto de vista legal, é uma só língua com um só padrão (sem reconhecimento de variedades), portanto, ajusta-se à situação descrita como (a), mas também é verdade que existe outra norma não oficial, o que representa a existência doutro padrão, não oficial, que o faz corresponder com o ponto (d). O asturiano e o mirandês, como já ficou assinalado, são um caso (e), mas ao mesmo tempo o asturiano possui um subpadrão próprio para o asturiano ocidental (poderia ser classificado assim porque está supeditado ao padrão central), o que se corresponde com a situação (b). Portanto, todas estas situações amiúde misturam-se, pelo que a situação das línguas minoritárias costuma ser complicada demais do ponto de vista normativo. Todavia, algumas das situações mostradas anteriormente podem coexistir nalgumas das línguas mencionadas. Por exemplo, o galego atual, do ponto de vista legal, é uma só língua com um só padrão (sem reconhecimento de variedades), portanto, ajusta-se à situação descrita como (a), mas também é verdade que existe outra norma não oficial, o que representa a existência doutro padrão, não oficial, que o faz corresponder com o ponto (d). O asturiano e o mirandês, como já foi assinalado, são um caso (e), mas ao mesmo tempo o asturiano possui um subpadrão próprio para o asturiano ocidental (poderia ser classificado assim porque está supeditado ao padrão central), o que se corresponde com a situação (b). Assim, todas estas situações amiúde misturam-se, pelo que a situação das línguas minoritárias costuma ser complicada demais do ponto de vista normativo.

1.6. A pirâmide legal das línguas em Espanha

Para a compreensão de qual o státus de cada língua dentro de Espanha, partiremos da seguinte pirâmide:

  • Línguas não estatais cooficiais: são assim reconhecidas por uma lei de âmbito autonómico, normalmente o Estatuto de Autonomía.
  • Línguas não estatais não cooficiais: O seu estatuto de autonomia reconhece-as, mas não lhes outorga valor de cooficialidade.
  • Línguas não estatais sem reconhecimento: não há qualquer lei que lhes dê reconhecimento legal e, portanto, é como se não existissem.

1.7. Alguns conceitos básicos como L1 e L2 

Um falante bilingue pode ter duas L1. Contudo, sempre uma das duas línguas tende a se impor sobre a outra ainda que só seja ligeiramente. Sempre uma língua tem que predominar sobre a outra, ainda que o falante tenha um perfeito conhecimento de ambos os idiomas. 

No caso de falantes que possuem uma língua regional, esta deveria prevalecer sobre a língua estatal. Estaríamos a falar duma L1 primaria e uma L1 secundária, sendo ambas L1 por serem adquiridas (não obstante, antigamente as L1 estatais eram aprendidas, geralmente na escola, mas hoje já não é assim, os nenos convivem com a língua estatal ao seu carão desde o primeiro momento). Salvo em casos muito contados, a L1 secundária, sendo esta uma língua estatal, tende a invadir os campos fono-gramaticais da L1 primaria (é a velha questão da língua teto que influi na língua coberta). Nestes casos, diríamos que os falantes são diglóssicos, mais do que bilingues, pois uma língua domina sobre a outra no plano da expressão, ainda que não necessariamente no plano do pensamento. 

O falante tradicional ou paleofalante poderá daquela ter duas L1, ou ter uma L1 que é a sua língua própria e uma L2 que a língua estatal, mas que geralmente chega a dominar (diríamos que tem um nível de competência na língua estatal mui alto). O neofalante, em contraste, tem uma L1 que geralmente é a língua estatal, mas aprende uma L2 com que tentará ter um nível de competência muito alto, até o ponto de que a L2 poda tornar-se a L1 e tenha um ponto de partida semelhante ao do paleofalante, mas com a diferença que não é um falante diglóssico, mas bilingue, pois é capaz de separar ambas as línguas em todas os planos, sem produzir mudança de códigos e menos ainda a mistura de códigos, algo próprio da maioria dos paleofalantes como já ficou indicado. 

1.8. A coabitação de socioletos: o caso da Galiza 

Não é singelo definir qual a situação da Galiza dum ponto de vista sociolinguístico. Conforme a normativa autonómica vigente, a Galiza é um território oficialmente bilingue, com dois idiomas cooficiais, o galego e o espanhol. Mas as coisas não são tão simples, visto que a presença de duas línguas num mesmo território leva à marginalização duma delas, neste caso da língua própria, o galego, frente ao castelhano, tornando-se o galego, portanto, uma língua minorizada no seu próprio território e deixando de ser a língua de uso comum. É falso afirmar que a sociedade galega é bilingue na maioria dos casos, é mais bem diglóssica, pois as duas línguas não gozam do mesmo status. 

Além disso, é preciso apresentar quais são as opções linguísticas que tem qualquer falante galego. São, na realidade, socioletos, podendo-se distinguir pelo menos cinco, tal como se vê no seguinte gráfico: 

Há uma interligação entre todas as socioletos anteriores. Enquanto o espanhol padrão é usado em circunstâncias muito formais, o espanhol regional da Galiza já é língua de comunicação habitual, tendo como traço principal que se trata dum espanhol moldado pelo galego, que neste caso funciona como um substrato. Frente a ele temos o galego padrão, como língua administrativa e culta, principalmente escrita, que compete nos usos informais com o galego dialetal, apenas falado. Porém, muitos cidadãos fazem um uso constante do híbrido entre galego e castelhano, que não é senão um passo prévio à desaparição do galego. De facto, em muitos dos casos em que se afirma que as pessoas falam galego, o que falam realmente é um híbrido, popularmente conhecido como castrapo, que de facto está a substituir o galego dialetal como veículo de comunicação.  

Os falantes de galego passam com muita frequência para o castelhano, mas em contraste os falantes de castelhano passam raramente para galego.  

Estamos a viver uma fase de substituição linguística em que o galego é varrido polo castelhano em todos os âmbitos sociais. Porém, a substituição não sucede de um dia para o seguinte, por isso é possível encontrar a existência de híbridos linguísticos que perduram uma ou duas gerações. 

Funtemática

1. O conceito de funtema

Nas teorias sintáticas do tipo funcionalista, a abordagem desta disciplina se faz principalmente através das funções sintáticas, mas este é um conceito um bocadinho complicado de entender por vezes.

As funções sintáticas são conhecidas como funtemas. Tradicionalmente, os funtemas são estabelecidos segundo a sua relação com o verbo principal, pois é ele que estabelece todas as relações sintáticas.

Os funtemas aparecem a distintos níveis da frase:

Níveis sintagmáticos e funtemas

Porém, em termos sintáticos, o verbo é chamado predicado. Não deve confundir-se este conceito com o acunhado na gramática tradicional, para a qual, o predicado é tudo quanto não é o sujeito, mas esta definição e de todo incorreta.

Do predicado emanam, portanto, uma série de funtemas que complementam o seu significado. Isto depende da estrutura semântica do predicado.

2. Funções sintáticas primárias

Assim, os dois primeiros funtemas que se encontra em muitos predicados são mesmo funções, como os sujeitos e os objetos. Muitos predicados ficam incompletos semanticamente se carecerem do seu complemento, como em;

(1) *Não quero amanhã.
(2) *Compraram para os rapazes?
(3) *Deixaram em cima da mesa para o pequeno-almoço.

Como se aprecia nos exemplos anteriores, falta um elemento que complementa o significado dos predicados. Estas funções que são necessárias para a plenitude do predicado são funções sintáticas primárias, que são principalmente: o sujeito e os distintos tipos de objetos.

Para as frases anteriores terem sentido, é preciso que incluam o objeto, portanto, devem ser refeitas:

(4) Não quero viajar amanhã.
(5) Compraram as guluseimas para os rapazes?
(6) Deixaram as garrafas em cima da mesa.

Portanto, as funções primárias são: sujeito (S), objeto direto (OD), objeto indireto (OI), objeto preposicional (OP), atributo (AT), predicativo (PVO).

Esquematicamente:

Núcleo
Predicado → P
Cópula → COP
Função externa
Sujeito  →  S
Função interna → as restantes
Objeto Direto → OD
Objeto Indireto → OI
Objeto Preposicional → OP
Adjunto → ADJ
Atributo →  AT
Predicativo → PVO

3. Funções sintáticas secundárias

Estas funções que emergem diretamente do predicado são, portanto, diferentes doutras que não dependem dele, mas que são adicionadas para introduzir alguma informação complementar, como em:

(7) Não quero viajar amanhã.
(8) Compraram as guluseimas para os rapazes no mercado?
(9) Deixaram as garrafas em cima da mesa para o pequeno-almoço.

A função adicionada nos exemplos anteriores é um adjunto, que, como dissemos anteriormente, não é compulsório. Se for eliminado em todos os exemplos anteriores, a frase manteria um significado completo e seria sintaticamente correta. Trata-se, portanto, de uma função sintática secundária.

Para além do adjunto, que fica anexo aos elementos nucleares da frase, existem outra série de funções secundárias que passamos a explicar, sendo a principal o circunstancial (CIRC)

Ele não deve ser confundido com o próprio adjunto, porque o CIRC fica na periferia da frase e não pode ser trocado com o ADJ:

(10) Na escola os rapazes jogam futebol no intervalo
(11) ?Os rapazes jogam futebol na escola no intervalo
(12) *No intervalo os rapazes jogam futebol na escola
(13) Os rapazes jogam futebol no intervalo na escola

4. Funções pragmáticas

Para além das funções sintáticas primárias e secundárias, existem outras que são também alheias ao predicado e que tem uma finalidade comunicativa.

O primeiro deles é a estrutura informativa do enunciado, o referido ao tema/rema e a ênfase, que dá lugar a dois funtemas muito frequentes: o tópico e o foco. 

O outro elemento pragmático que aparece na frase sintática e a relação entre falante e ouvinte. Tal relação é muito amiúde expressada por meio de clíticos. Eis a lista das funções pragmáticas mais comuns:

Pergunta (interrogador) → INT
Foco → F
Vocativo → V
Tópico → T
Dótico → DOT (exemplo: Porta-te-me bem)

Quanto ao dótico, corresponde com o uso pragmático dos clíticos. 

5. Categorias

As categorias são também funtemas e têm um valor exclusivamente sintático de suporte às funções. Eis a lista das principais categorias:

Complementador → C
Modificador → M
Modal-auxiliares →  A
Negador → N
Diatetizador → D (é a voz verbal: ativa, média [impessoal e ergativa] e passiva)
Relator → R

A principal diferença entre um modificador e um circunstancial encontra-se em que o modificador tem um valor pragmático (como um advérbio do género provavelmente; pode ser que se expresse alguma valorização: honestamente, etc.). O circunstancial não tem qualquer valor pragmático e fornece informação de tipo locativo, temporal, final, condicional, etc. 

Na parte superior da frase encontra-se uma categoria abstrata conhecida como complementador (em muitos casos representada pela conjunção que). Nas frases simples não é preciso representá-lo, mas sim nas compostas. 

Os clíticos respondem a três categorias diferentes:

Classificação dos clíticos

Clíticos con valor de impletivo, vejam-se exemplos (18) e (23)

Clítico con valor diatético (primeiro de voz média impessoal e a seguir de voz média ergativa):

(15) [E O livro][S ø] [P vende][D se] [A muito bem]
(16) [E A pandemia] [S ø][P expande] [D -se] [A sem controlo]

Clítico com valor pragmático (dótico)

(17) Não me sejas ruim

6. O movimento

Em sintaxe, mesmo na sintaxe funcionalistas, cumpre entender que há movimentos de certos funtemas para expressar perguntas, ênfase, etc.

O movimento mais corrente é o tópico. Segundo isto, um objeto passa para a primeira posição por motivos de énfase ou para que a estrutura informativa da frase tenha o elemento novo no final e que envolve uma estrutura OSV:

(18) ({[T O teu irmão] [S <eu> ] [P vi-o] [OD o teu irmão] [A na loja]})

Outro movimento muito frequente é aquele que se produz nas perguntas, no qual, aliás, envolve uma estrutura OVS. Para explicar o movimento do predicado, recorre-se ao foco.

Nas perguntas abertas, o interrogador implica dois movimentos.

(19) {[F Contra quem] [INT é que jogaram] [S vocês] [V jogaram] [OP contra quem] [A ontem?]}

Nas perguntas abertas, o interrogador pode ter o P:

(20) {[INT Jogaram] [S vocês] [V jogaram] [A ontem?]}

ou bem ser simplesmente uma questão tonal:

(21) {[INT <?>] [S Vocês] [V jogaram] [A ontem?]}

Também a diátese envolve movimento (veja-se depois §9)

8. As funções espelho

São ocos funcionais que só são recheados quando uma função sintática se desloca por motivos sintáticos ou pragmáticos. Há quatro tipos deles: 

Expletivo:indicam o movimento do sujeito, total ou parcialmente. 

(22) A porta fechou a porta sozinha

Impletivo: indicam o movimento dos objetos e são representados em português pelos clíticos, com casos de pleonasmo

(23) A torta fi-la eu fiz a torta

9. A diátese e a estrutura da frase

Já foi visto acima como a frase é constituída por uma série de funtemas, entre os quais está sempre o PRED.  Para entender quantos tipos de frases podem ser construídas, é preciso partir da diátese, visto que as possibilidades de combinação de funtemas variam segundo seja a voz verbal. 

Este é o quadro resumo das diferentes classes de frases simples que existem: 

  1. Ativa
    1.1. Nominal: {[S][P][AT]}
    1.2.Verbal
    1.2.1.Transitiva: {[S][P][OD]}
    1.2.2. Cotransitiva: {[S][P][OP]}
    1.2.3. Ditransitiva
    1.2.3.1. Tipo I: {[S][P][OD][OI]}
    1.2.3.2. Tipo II: {[S][P][OD][OI]}
    1.2.4. Intransitiva ou inergativa: {[S][P]}
    1.2.5. Inacusativa {[E][P][S]}
  2. Média
    2.1. Impessoal
    2.1.2. Transitive: {[S][D][P][OD]}
    2.1.3. Cotransitiva: {[S][D][P][OP]}
    2.1.4. Ditransitiva
    2.1.4.1. Tipo I: {[S][D][P][OD][OI]}
    2.1.4.2. Tipo II: {[S][D][P][OD][OP]}
    2.1.5. Intransitiva: {[S][D][P]}
    2.1.6. Inacusativa: {[S][D][P]}
    2.2. Ergativa: {[S][D][P][OD]}
  3. Passiva: {[E][S][D][P][OD][OA]}

A diátese (ou voz) ativa é a não marcada. Dela é que se fazem as transformações para passiva e ergativa, por norma em processos de desagentização: 

ERGATIVA: {[EO barco] [S ø] [D ø] [Pafundiu] [ODo barco]} 

Forma

ATIVA: {[SO torpedo] [Pafundiu] [Oo barco]} 

Forma

PASSIVA: {[EO barco] [So torpedo] [Dfoi] [Pafundido] [ODo barco] [OA pelo torpedo]} 

10. Quadro resumo dos funtemas:

Os distintos funtemas

Monemática

1. Monemas, temas, desinências, lexemas e morfemas

1.1. A arquitetura das palavras

A estrutura das palavras é o objeto de estudo da morfologia, que no contexto da GFC é nomeada como monemáticaA maioria das palavras podem ser descompostas em unidades inferiores, segundo este quadro que iremos desenvolvendo a seguir:

Monema

Lexema

Morfema

Sema Afixo Livre

Dependente

Prefixo

Sufixo

1.2. Monemas

O conceito palavra é pouco rigoroso, por isso, preferimos falar em monemasQual a diferença entre monema e palavraSe tomarmos como amostra falo, falas, fala, falamos, falam, ou bem casa, casas, casinha, teremos palavras diferentes, mas de facto são apenas dois monemas, pois não há diferença de significado.

Em princípio, uma palavra pode estar composta por um só monema: casaMas também pode estar composta por mais elementos, como em presentear:

[presente|-ar]

É claro que presente é um monema, mas ao ser-lhe adicionado um elemento que transforma um nome (presente) num verbo (presentear) acontece que é possível dividir os monemas em unidades menores. Portanto, a estrutura de presentear é o já apresentado encima:

[presente|-ar]

Portanto, um monema pode contar com no mínimo um lexema > monema simplesSe o monema, para além de um lexema, contar com outros elementos, estes são morfemas > monema derivado

Qual a diferença entre lexema e morfema?

  1. O lexema tem carga semântica, isto é, tem significado.
  2. O morferma adiciona informação de outro tipo (gramatical, contextual, etc.)

1.3. Temas

Os temas (com ou sem afixos) formam lexemas, por causa de possuírem significado, correspondem às quatro categorias gramaticais principais:

  • Nome (N)
  • Verbo (V)
  • Adjetivo (A)
  • Advérbio (ADV)

A maioria dos temas portugueses vêm diretamente do latim, mas foram submetidos a uma evolução que os transformou. Exemplo LT pisce(m) > PT peixe; LT > lacte(m) > PT leite; LT molinum > PT moinho; etc. Estas são as palavras primitivas do idioma. Mas ao longo da sua história, o português tomou palavras de outras línguas com que conviveu.

  • Árabe: arroz, algodão, açúcar, etc.
  • Germânico:  guerra, branco, luva, etc.
  • Das línguas da América: tomate, chocolate, abacaxi, etc.

Quando em português encontramos palavras como lunar, repetir, filial, capital, etc. mostram um tema que não é uma palavra primitiva: luna, petir, filio, cápitaTrata-se de raízes latinas cujos equivalentes em português moderno são: lua, pedir, orelha, cabeçaEstes temas latinos dão lugar a uma palavra culta ou cultismoDe facto, existem alguns casos em que há um derivado do tema primitivo e do culto ao mesmo tempo, como luar >< lunar, capital >< cabeçal, etc.

1.4. Afixos

Os afixos fornecem informação gramatical aos temas e até por vezes léxicas, mas eles só carecem de significado,

Lexema

       Prefixo          Sema      

       Sufixo    

Os afixos são colocados antes e depois do tema. Os prefixos vão colocados antes do lexema: desnecessário, autoserviço, etc. Os sufixos vão colocados depois do lexema: qualificar, extraordinariamente, etc.

2. Análise temática: formação de palavras

As palavras podem ser classificadas assim:

2.1. Palavras compostas

As palavras compostas são aquelas que têm dois monemas. Quando os dois monemas conservam o seu acento tônico, fala-se em palavras justapostas:

  • couve-flor (plural couves-flores ou couve-flores),
  • couve-de-bruxelas
  • porco-espinho (pl. porcos-espinhos ou porcos-espinho)
  • rico-homem
  • surdo-mudo

Mas quando fica apenas um só acento tónico, no segundo lexema, fala-se em palavras aglutinadas:

  • aguardente
  • vinagre
  • girassol
  • parassol
  • planalto
  • embora
  • pontapé

2.2. Palavras derivadas

As palavras derivadas são aquelas que precisam de afixos adicionados ao lexema. Os dois procedimentos mais frequentes são a prefixação e a sufixação:

(a) prefixação, com pôr

  • compor
  • depor
  • dispor
  • impor
  • repor    

(b) sufixação, com cabeça

  • cabeceiro
  • cabecear
  • cabeceira
  • cabeçal
  • cabeçalha    

2.2.1. Por prefixação

Os sufixos, como já foi dito, são elementos que se antepõem ao tema. Os principais prefixos do português são: a-, ab-, ad-, ante-, co-, com-, de-, des-, dis-, em, en-, im-, in-, per-, pro-, re-, retro-, etc. Alguns dos prefixos anteriores são variantes, por exemplo coabitar vs. compor vs. concederExemplos de derivação por prefixação:

  • afiliar (a·filiar);
  • anaeróbico (an·aeróbico);
  • antemão (ante·mão);
  • anti-inflamatório (anti·inflamatório);
  • através (a·través);

Alguns prefixos são escritos com um hífen, embora a maioria não se separem do lexema. Usa-se o hífen quando o prefixo termina com a mesma vogal com que começa o lexema, tenha ou não <h>:

  • micro-ondas;
  • anti-inflamatório;
  • contra-ataque;
  • anti-higiênico;
  • sobre-humano; etc.

Esses mesmos prefixos vão sem hífen quando não se dão as circunstâncias anteriores:

  • anticoncepcional;
  • contraproposta;
  • sobrenome;
  • antirrugas;
  • contrassenso; etc.

2.2.2. Por sufixação

Exemplos:

  • aprendiz (aprender|iz);
  • folhear (folha|ear)
  • simplesmente (simples|mente)
  • ciumento (ciúme|ento)
  • velozmente (veloz|mente)
  • orgulhoso (orgulho|oso)

A sufixação pode causar o passo de uma categoria para outra. Por exemplo, o adjetivo bom transforma-se em adjetivo graças a um sufixo: bondadeMas a mudança de categoria não acontece sempre. De livro derivam livraria e livreira, todos três nomes. A lista dos principais sufixos categorizadores:

Sufixos nominais Sufixos verbais Sufixos adverbiais Sufixos adjetivais
  • -dor /-tor
  • -eiro
  •  -ão
  •  -aço
  •  -inho
  • -mento
  • -dade
  • -ice
  • -ez
  • -iz
  • -ura
  •  -ear
  •  -ejar
  •  -ecer
  •  -izar
  •  -mente
  • -al
  • -ável / -ível
  • -il
  • -oso/a
  • -ado/a

2.2.3. Por parassíntese

Na parassíntese dão-se juntas a prefixação e a sufixação:

  • abençoar (a|benç|oar)
  • amanhecer (a|manhã|ecer)
  • anoitecer (a|noite|ecer)
  • entardecer (en|tarde|ecer )
  • envelhecer (en|velho|ecer)
  • enrijecer (en|rijo|ecer)
  • entristecer (en|triste|ecer)
  • emagrecer (e|magro|cer)
  • engaiolar (en|gaiola|ar)

2.2.4. Diferença entre derivação parassintética e derivação prefixal e sufixal

É possível confundir derivação parassintética com prefixação e sufixação. Uma derivação por sufixos pode contar também com prefixos. Por exemplo:

  • felizmente [feliz|mente]
  • infeliz [in|feliz]
  • infelizmente {in|feliz|mente}

Porém, na derivação parassintética, é obrigatória dos dois afixos: prefixo e sufixo:

  • apresentar (a·presente·ar)
  • espairecer (es·pairar·ecer)
  • esquentar (es·quente·ar)
  • entediar (en·tédio·ar)
  • desgelar (des·gelo·ar)

Exemplos de derivação prefixal e sufixal:

  • deslealdade (des·leal·dade);
  • independentemente (in·dependente·mente);
  • infielmente (in·fiel·mente), etc.

2.2.5. Redução

A redução é um procedimento pelo qual uma palavra é reduzida. Também se incluem nesta seção as siglas:

  • foto (< fotografia);
  • info (< informação)
  • mota (< motocicleta) <no Brasil moto>;
  • pneu (< pneumático);
  • ONU (<Organização das Nações Unidas);
  • INEM (< Instituto Nacional de Emergência Médica)

2.2.6. Derivação imprópria

A derivação imprópria é um processo pelo qual uma palavra que pertence a uma determinada categoria (N, A, V, ADV) muda a categoria gramatical sem mudar a sua forma. As principais mudanças são:

V > N

  • O saber não ocupa lugar.
  • É muito engraçado o falar daquele senhor.
  • Meu vizinho tem um andar engraçado.
  • Gosto do seu olhar.
  • O jantar já está pronto!

A > N

  • Os bons sempre são estimados.
  • O nervosinho ali não se controla.
  • Os jovens andam perdidos.
  • Estou a desfrutar do azul do céu.

A > ADV

  • Esse fulano grita muito alto
  • A menina falou baixo, cheia de vergonha.
  • Fala sério!

ADV > N

  • Estou esperando o sim da direção.
  • A esse menino falta ouvir um não.

N > A

  • O meu filho sempre foi um menino prodígio.
  • Esta cidade fantasma é assustadora!

2.2.8. Derivação regressiva

A derivação regressiva consiste em criar uma palavra nova por redução da palavra de que deriva.  Por norma, trata-se de um processo de mudança de categoria V > N. Exemplos:

  • abalo (< abalar);
  • agito (< agitar);
  • ajuda (< ajudar);
  • alcance (< alcançar);
  • amasso (< amassar);
  • amostra (< amostrar);
  • amparo (< amparar);
  • ataque (< atacar);
  • atraso (< atrasar);
  • caça (< caçar);
  • castigo (< castigar);
  • choro (< chorar);
  • combate (< combater);
  • compra (< comprar);
  • consumo (< consumir);
  • corte (< cortar);
  • debate (< debater);
  • denúncia (< denunciar);
  • dispensa (< dispensar);
  • embarque (< embarcar);
  • erro (< errar);
  • mergulho (< mergulhar);
  • pesca (< pescar);
  • recuo (< recuar);
  • remoinho (< remoinhar);
  • renúncia (< renunciar);
  • saque (< sacar);
  • sobra (< sobrar);
  • sustento (< sustentar);
  • toque (< tocar);
  • trabalho (< trabalhar);
  • venda (< vender);

3. A análise lexemática

Até aqui temos visto quais os procedimentos que explicam a criação de palavras em português e que compõem a análise temática. A seguir, ocupar-nos-emos com os monemas temáticos das quatro grandes categorias (N, A, V, ADV). Os lexemas são a unidade que formam os temas com os afixos. Os morfemas são uma projeção dos lexemas, aos quais adicionam informação gramatical.

morfema

    livre                   

dependentes

    desinências nominais      

                desinências verbais   

Já não se trabalhará com sufixos nem prefixos, mas com lexemas e desinências, que formam a análise lexemáticaTrata-se, portanto, de dois níveis de análise:

monema

lexema

    morfemas    

         prefixo(s)            sema    

    sufixo(s)   

Os morfemas livres vão independentes, como as preposições ou os clíticos. Os morfemas dependentes vão ligados ao lexema.Num monema como fácil, há coincidência quanto ao lexema, ao tema e ao monema adjetival. O monema facilidad tem uma análise temática:

[fácil|idade]

Se aparecer em plural, já é possível a análise lexemática:

[(facilidade)(-s)]

E até se podem combinar os dois níveis de análise:

[(fácil|-idade)(-s)]

3.1. Monemas nominais e adjetivais

Os nomes e os adjetivos têm um comportamento morfológico muito parecido. O tema de ambas as categorias admite desinências de dois tipos: género e número. Aliás, ambas as categorias admitem desinências de diminutivo e aumentativoA estrutura do nome e do adjetivo pode ser representada assim:

monema nominal e adjetival

lexema

morfema > desinência

   prefixo(s)      sema       sufixo(s)    diminut. (D) género (Gº)

número (Nº)

Os adjetivos admitem, aliás, formas sintéticas de comparação:

  • bom > melhor
  • mau > pior
  • grande > maior
  • pequeno > menor 

As desinências de género são de múltiplas formas em português e nem todos os monemas admitem esta flexão (─a, ─ina, ─inha, ─ã). As distintas possibilidades de desinência são conhecidas como alomorfes.

  • alto > alta
  • mestre > mestra
  • irmão > irmã
  • leão > leona
  • rei > rainha
  • herói > heroína
  • abade > abadessa
  • bom > boa

Quanto às desinências de número, estas também apresentam variantes (─s, ─es, ─is, ─eis). Tem, portanto, alomorfes:

  • casa > casas
  • homem > homens
  • canção > canções
  • verão > verãos
  • capitão > capitães
  • canal > canais
  • fácil > fáceis

À vista do anterior, vemos que há formações regulares e irregulares.

Exemplos de formações regulares:

  • altas > [(alto)(-a)(-s)]
  • vacas > [(vaca)(-s)]
  • professoras> [(professor)(-a)(-s)]

Exemplos de formações irregulares (as letras rasuradas indica que desaparecem quando é incorporada a desinência):

  • irmãos > [(irmã)(-o)(-s)] É um caso de masculino com desinência
  • canções > [(canção)(-ões)]
  • animais > [(animal)(-is)]
  • fáceis > [(fácil)(-eis)]
  • túneis > [(túnel)(-is)]

Há casos em que não há uma desinência nem para o género nem para o número. Falamos então de desinência zero (∅):

  • importante (fem.) > [(importante)(-∅)]
  • lápis (pl.) > [(lápis)(-∅)]

3.2. Monemas verbais

O verbo é o elemento mais complexo de todas as categorias de palavras. Em português aceita a maior quantidade de desinências: pessoa, tempo, modo, aspeto, voz. A sua estrutura temática pode ser representada assim:

monema verbal

lexema

desinência

prefix(s) tema sufixo(s)

pessoa (P)

tempo   (T) modo (M) aspeto (A)

voz (V)

Uma das caraterísticas mais importantes das desinências verbais é que é quase impossível separá-las como se faz com as desinências nominais e adjetivais.

Se compararmos falo com falei, a desinência ─o do primeiro caso colhe a seguinte informação: presente de indicativo, primeira pessoa do singular, aspecto imperfectivo, voz ativa; porém, a desinência ─ei colhe a seguinte informação: pretérito perfeito simples de indicativo, primeira pessoa do singular, aspecto imperfectivo, voz ativa. A única diferença entre ambas é o tempo.

Porém, todas as informações vão incluídas numa só desinência. Esta característica de aglutinar vários traços numa só desinência é conhecida como amálgama. A amálgama, contudo, nem só se refere às desinências, mas também existem amálgamas de tema e desinências, como fui, veio, etc., que marcamos com (*)

Em português, as desinências todas, salvo a pessoa, formam uma só amálgama que cá chamamos dimensãoPortanto, as desinências verbais vão em maior ou menor medida amalgamadas.

  • falei

M01

  • falaram

M02.png

  • falarias

M03

Mas com os verbos existe um problema adicional. Trata-se dos verbos irregulares.Apresentam um lexema irregular mas também as suas desinências são parcialmente irregulares:

  • fazer > fiz-
  • dizer > diss-
  • traer > troux-
  • querer > quis-; etc.

Da mesma forma que falamos em alomorfes, cá falamos em alolexemas.

  • trouxeste > que é um alolexema de traze-

M04.png

O alolexema pode ser também encontrado na primeira pessoa do singular do presente de indicativo e, depois, por extensão, em todo o presente de conjuntivo:

  • faço

M05

  • fazes > [(faz)(es)]

M06

  • faz

M07

Aliás, os verbos conhecem formas compostas com ter. Neste caso há dois lexemas, mas é sempre um só monema:

  • tinha visto > onde tinha é um alolexema de te (ter).

M08.png

É este também o caso da voz verbal passiva:

  • somos aguardadas

M09

E até se podem combinar os tempos compostos com a voz passiva:

  • têm sido aguardados

m12

3.3. Monemas adverbiais

É um género de monemas são muito simples. Apenas aceitam, e só nalguns casos, uma forma de diminutivo. Por norma, os advérbios só constam de tema. A sua estrutura de temas é, portanto:

monema adverbial
lexema desinência
prefixo(s) sema sufixo(s) diminutivo
  • bem
  • devagar·zinho

Coincidem com os adjetivos que aceitam formas comparativas sintéticas.

  • bem > melhor
  • mal > pior

4. Categorias ou classes de palavras

4.1. Classes abertas e classes fechadas

Até agora prestámos uma especial atenção para as quatro categorias principais: N, V, A, ADV. Estas quatro classes constituem a classe aberta, pois novos elementos podem ser incorporados a ela. Isto quer dizer que a língua incorpora constantemente nomes, verbos e adjetivos (e em menor medida advérbios) à língua. O resto de categorias (preposições, demonstrativos, possessivos, etc.) não aumentam, ficam praticamente imutáveis dos inícios do idioma. Por isso são uma classe fechada.

4.2. Classificação

Do ponto de vista morfológico, as categorias ou classes de palavras em português são:

  1. Nome
  2. Adjetivo
  3. Determinante
    1. Artigo
      1. Definido
      2. Indefinido
    2. Demonstrativo
    3. Possessivo
  4. Quantificador (indefinido)
  5. Numeral
  6. Interrogativo e exclamativo
  7. Pronome
    1. Pessoal
      1. Reto
      2. Oblíquo
    2. Relativo
  8. Clítico (diferente do pronome pessoal, é de facto um morfema livre, enquanto o pronome é um lexema).
  9. Verbo
    1. lexemático
    2. auxiliar
  10. Advérbio
    1. simples
    2. locução (de repente, em breve, etc.)
  11. Preposição
    1. simples
    2. composta (locução)
  12. Conjunção
    1. coordenativa
      1. aditiva
      2. adversativa
      3. consecutiva
      4. alternativa
      5. conclusiva
      6. explicativa
    2. subordinativa
      1. integrante  (que, se)
      2. condicional
      3. temporal
      4. causal
      5. concessiva
      6. fina
      7. comparativa
  13. Interjeição

4.3. Uso atributivo e predicativo

Tradicionalmente distingue-se entre uso pronominal e adjetival de certos elementos, como os demonstrativos. Cá preferimos falar em uso atributivo e uso predicativoO uso atributivo aparece quando o elemento em questão não depende de nenhum outro:

  • Este rapaz é bom
  • A minha casa é linda

O uso predicativo, em contraste, aparece quando o elemento em questão depende de um outro:

  • O bom rapaz é este
  • Este é bom
  • Essa casa linda é minha

5. Na fronteira entre morfologia e sintaxe

5.1. A análise pré-sintagmática

Atenderemos, portanto, para as projeções dos quatro lexemas mais importantes: N, A, V e ADV, cujas projeções são: N’, A’, V’ e ADV’. Chamamos análise pré-sintagmática àquela que se ocupa da projeção máxima dos quatro monemas. Se houver extensão, já não se trata de uma análise morfológica, mas sintática. Uma análise monemática projetada serviria para explicar:

  • Com esses rapazes > há uma unidade de significado

Porém, não serve para analisar:

  • Com esses simpáticos rapazes do teu bairro > não há unidade de significado

m13b

Os elementos sublinhados são extensões, portanto fica fora do âmbito de estudo da morfologia e já corresponde à sintaxe.

5.2. Projeção nominal

Uma projeção nominal pode ser implementada por preposições (C, de caso) e determinantes, entre os quais figuram os artigos, possessivos e demonstrativos. A projeção nominal, como o sintagma nominal, tem de respeitar a regra da concordância a respeito do seu núcleo, o nome (N). Por simplicidade, prescindiremos da análise temática neste capítulo:

  • inglesas

m14

  • as inglesas

m15

  • estas inglesas > É o mesmo caso do artigo, mas com desinências.

m15b

  • com as inglesas> A preposição é uma desinência livre, mas também um monema por não estar ligado ao nome.

m16

Numa língua como o latim, pode-se prescindir de proposições, pelo qual a análise é diferente:

  • lusitanicis

m17

  • his lusitanicis

m18

O latim e o português são línguas flexivas, mas quando se trata de línguas aglutinantes, a fronteira entre monema e sintagma é apagada. Eis um exemplo do basco, uma língua aglutinante:

  • Bilbokoak (=’os de Bilbao’)

m19

5.3. Projeção adjetival

A projeção adjetival pode ter uma flexão de género, número, diminutivo e comparação, como já foi visto em §3.1. Para além disso, pode ir precedido de um intensificador (um advérbio).

  • simpáticas

m20

  • muito simpáticas

m21

  • muito especiais

m22

O intensificador pode ser um morfo:

  • especialíssimos

m23

Se for comparado, ficaria assim:

  • mais altos

m24

5.4. Projeção adverbial

A projeção adverbial funciona morfologicamente como a adjetival, com a diferença que não tem flexão.

  • devagar 

m25

  • muito devagar

m26

  • devagarzinho

m27

  • devagaríssimo

m28

5.5. Projeção verbal

Existem vários elementos que devem ser mencionados na análise dos elementos que projeta o verbo lexemático (predicado): verbos auxiliares, negação e clíticos.

  • falamos

m29

  • falássemos

m30

  • estamos falando

m31

  • não vos tenho falado > A negação é marcada como NEG, embora se trate de um advérbio. Observe-se como o clítico vós é considerado C, isto é, uma marca de caso, como as preposições. A diferença entre a preposição e o clítico é que a primeira é uma projeção do nome, enquanto a segunda é uma projeção do verbo.

m32

  • tem sido falado

m33

6. Unidades de significado complexo

Em muitas ocasiões, um grupo de dois nomes unidos por uma preposição  (o máis frequente) ou juxtapostos, ou bem um nome com um adjetivo têm um significado único, que não é a soma dos seus monemas independentes.

  • Casa de banho
  • Código de barras
  • Palavra clave
  • Ovo mol
  • Roleta russa

7. Abreviaturas

  • A: adjetivo
  • Aº: artigo
  • ADV: advérbio
  • AUX: auxiliar (verbo)
  • C: caso (as preposições e os clíticos estão incluídas nesta categoria)
  • COM: comparativo
  • D: dimensão
  • DE: determinante
  • Dº: diminutivo
  • Gº: género
  • I: intensificador
  • N: nome
  • Nº: número
  • NEG: negador
  • P: pessoa
  • Pº: possessivo
  • V: verbo